Festival de diversidade

Mix Brasil, que tem início hoje, vai exibir 120 filmes, além de peças teatrais

MARCIO CLAESEN, O Estado de S.Paulo

10 de novembro de 2011 | 03h09

Se 2010 marcou sua maioridade, este é o ano em que o Festival Mix Brasil da Diversidade Sexual passa a dar espaço à cultura e não mais só ao cinema, resume ao Estado André Fisher, um dos diretores do evento, que hoje chega à sua 19.ª edição.

O braço teatral está de volta. Na quarta exibição do Dramática em Cena há a chance de rever espetáculos que dialogam com o público LGBT. Alguns deles passaram rapidamente pelos palcos paulistanos, como Dentro da Noite, dirigido pelo cantor Ney Matogrosso. Outros foram reverenciados por crítica e público, como As Três Velhas, que reuniu o trio Maria Alice Vergueiro, Pascoal da Conceição e Luciano Chirolli. Há até uma opção infantil, O Menino Teresa, de Marcelo Romagnoli, que nasceu de um quadro do extinto programa da TV Cultura Rá-Tim-Bum.

As peças estarão no Centro Cultural São Paulo, que será tomado pelo festival nos próximos dias. Isso inclui também a sala de projeções e o foyer, que recebe uma instalação com figurinos e pertences da performer Claudia Wonder. Representante da noite e da cultura underground paulistana, a transexual, morta em 2010, virou tema do documentário Meu Amigo Claudia, atração do evento há dois anos, e ainda inédito no circuito comercial, que ganha reexibição no festival.

Transgênero. Não é por acaso que Claudia é mais uma vez lembrada. A Diversidade É Para Todos, tema do evento este ano, celebra especialmente a transexualidade, que assume papel central no Mix 2011. Seja em documentários ou ficções, esses iconoclastas da masculinidade e da feminilidade ganharam retratos contundentes, sensíveis e, por que não?, históricos nesta edição.

Se Garotos Não Choram (1999) e Transamerica (2005) estão na lista das produções mais recomendadas para entender a trajetória e conflitos dos transgêneros, Romeus, longa de estreia de Sabine Bernardi, merece estar no mesmo patamar. A produção alemã conta a história de Lukas (Rick Okon), um transexual masculino (mulher biológica com sexo mental de homem) que se apaixona por Fabio (Maximilian Befort), rapaz que é seu ideal de beleza. O filme pode embaralhar a cabeça de alguns ao mostrar que identidade de gênero não tem necessariamente a ver com orientação sexual. Lukas, de 20 anos, é um transexual gay.

Dentre os destaques no mesmo tema, há Tomboy - escolhido para a abertura do festival - que fala do assunto numa idade ainda mais tenra. Laure, garota de 10 anos, passa-se por menino durante as férias de verão. Assim como Lukas, Laure também está em fase de descobertas importantes na vida correndo o risco de se machucar emocionalmente.

Da 35.ª Mostra de São Paulo vêm os celebrados Cuba Libre, de Evaldo Mocarzel, e Olhe pra Mim de Novo, de Kiko Goiffman. O primeiro mostra o retorno da atriz transexual Phedra de Córdoba, do grupo teatral Os Satyros, a seu país e as mudanças pelas quais a ilha passou em relação aos direitos gays. Olhe pra Mim de Novo acompanha o transexual Syllvio Luccio em uma viagem por cidades do sertão nordestino investigando como as famílias lidam com a diversidade quando ela está em suas casas.

Política. Vem da Suécia mais uma vez uma comédia em torno de um assunto delicado. Em Patrick, Idade 1,5, de 2008, a adoção de filhos por casais gays era o tema a ser discutido. Agora, política é o foco em O Próximo Mandato. Um candidato a primeiro-ministro do país, casado há 20 anos, se vê interessado em outro candidato, este abertamente homossexual. O romance aflora e David terá de lidar com uma vida que ele não conhecia e saber se está preparado para assumir o novo relacionamento.

O assunto também é o mote de Diferente de Quem?, de Umberto Carteni. Entretanto, a situação é oposta. Neste, Piero (Luca Argentero) também é candidato - a prefeito de uma cidade ao Norte de Roma - mas já saiu do armário. Em relacionamento estável com o companheiro há 14 anos, ele é obrigado a aturar Adele (Claudia Gerini) como parceira na campanha por imposição do partido. A moça é uma espécie de Sarah Palin, luta a favor da família e tem ojeriza a homossexuais. A convivência forçada entre os dois gera afinidades eleitorais e também afetivas. Eles passam a ter um romanece, que, se revelado, levará Piero a perder as eleições.

Arco-íris italiano. Em comemoração ao ano da Itália no Brasil, esta edição do festival oferece um breve panorama do atual produção de filmes sobre o tema no país. Um dos destaques é Anjos no Corredor da Morte, coprodução com o Irã que trata da pena de morte imposta pelo país do Oriente Médio aos homossexuais e o rastro de dor e inconformismo que a sentença deixa em parte da população.

Com 120 filmes, o Mix, que depois faz uma itinerância mais enxuta pelo Brasil, mostra que ainda é relevante e aprofunda cada vez mais a discussão em torno de todas as letras da sigla LGBT.

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