Festival de Curitiba termina amanhã

As estréias, hoje, de A Força do Hábito, peça de Thomas Bernhard, dirigida por Luciano Alabarse, e Filosofia na Alcova, adaptação da obra do Marques de Sade, com a Cia. dos Satyros, grupo de origem curitibana sediado em São Paulo, encerram a programação da mostra oficial da 12.ª edição do Festival de Teatro de Curitiba, que termina amanhã à noite. Mas até lá, há muito o que ver. Na mostra paralela, só ontem, 15 novas montagens entraram no circuito de espaços teatrais espalhados pela cidade.Foram cinco horas de duração. Iniciada com atraso de meia hora, a apresentação de Os Sete Afluentes do Rio Ota, espetáculo concebido por Robert Lepage e dirigido no Brasil por Monique Gardenberg só terminou às três horas da madrugada. E foi aplaudido calorosamente pelo público que não arredou pé do teatro. A guerra e suas conseqüências - que perduram por gerações - são a tônica do espetáculo que percorre o século passado de 1945 a 1997 e está estruturado em sete episódios, em cidades como Hiroshima, Nova York, Amsterdã, Osaka e Terezin.Originalmente, foi criado a partir de uma idéia de Lepage desenvolvida, coletivamente, por um grupo de atores sob sua coordenação. A montagem brasileira é uma reprodução do espetáculo de Lepage. A inserção de uma poesia, dita por Pascoal da Conceição, está entre alguns poucos detalhes acrescentados pela diretora. Ela assume ter sido seu objetivo manter-se fiel à criação do diretor canadense e, assim, propiciar aos espectadores brasileiros a oportunidade de compartilhar o mesmo encantamento que sentira ao assistir à montagem original.Realmente, o espetáculo encanta os sentidos com sua beleza plástica e sonora desde a primeira cena, na qual um soldado americano (Caco Ciocler) tira fotos em Hiroshima, parte do esforço de "reconstrução pós-guerra". Ele logo vai perceber que há danos não reparáveis, como a dor da jovem japonesa (Beth Goulart), outrora bela e agora encerrada em sua casa de onde sua sogra retirou todos os espelhos, para que ela não tome conhecimento do grau de deformação de seu rosto. A partir daí, sem maniqueísmos ou simplismos, começa uma série de pequenas histórias interligadas, sempre do ponto de vista dos sem-poder, num contraponto ocidente-oriente que, a um só tempo, destaca as diferenças culturais e reforça as semelhanças, a humanidade comum a todos os povos. São inúmeros os recursos técnicos utilizados resultando em impactante plasticidade. O texto tem algumas fragilidades, compensadas pela força das imagens.O elenco - além dos já citados, entre os 14 atores estão Helena Ignez, Maria Luisa Mendonça e Lorena da Silva - dá conta da empreitada. Beth Goulart, que interpreta lindamente, com contenção e matizes, a jovem japonesa do primeiro episódio, escorrega na caricatura no papel da estressada Patricia, primeiro a mulher de um diplomata, depois uma jornalista. Se o ator, ele próprio, exagera nos defeitos e critica um personagem, não deixa margem para o público fazê-lo. É o que ocorre com Beth nessas duas interpretações. Mas são ajustes possíveis de serem feitos e que não comprometem a qualidade geral do espetáculo, que deve estrear em julho no Sesc Anchieta.Também carece de alguns ajustes a (ótima) adaptação de Hugo Possolo, diretor e ator do grupo Parlapatões, de duas peças de Aristófanes: As Nuvens e Um Deus Chamado Pluto, unidas num único espetáculo. A primeira conta a história de Estrepado, um sujeito rico que está falido e, por isso, vai em busca de Sócrates (Wall Street na versão de Possolo) para a aprender a arte da retórica, da argumentação, para com sofismas livrar-se de seus credores. A segunda, de Crédulo, um homem honesto e pobre que encontra Pluto, o deus do dinheiro, cego por um castigo de Zeus. Ao curar Pluto de sua cegueira, fica rico, pois o deus passa a distribuir riqueza apenas para os justos e honestos. Mas com tal atitude vai despertar a ira dos deuses. Depois de muita confusão, volta a ser cego. Estrepado está velho demais para aprender os ensinamentos de Wall Street, mas seu filho Fedapê fará isso com rapidez e brilho inesperados.A montagem dos Parlapatões tem ótimas sacadas, como a atualização dos sofismas para o mundo volátil do mercado financeiro e a virtualidade de marketing ou a remissão ao presidente Lula no figurino do deus do dinheiro. Hilária também a invenção do personagem que entra em cena, como uma nota de pé de página teatral, para explicar termos supostamente desconhecidos do público ou a cena de um tiro de revólver em câmera lenta."Fazer comédia com conteúdo político é difícil. A leitura que normalmente se faz da comédia é aquela forma de teatro que faz rir e esquecer dos problemas, deixar o mundo lá fora", disse Possolo ao Estado, em entrevista antes da estréia. "Para provocar uma gargalhada é preciso surpreender. E o risco que gente corre é desviar-se do foco principal, o que resultaria numa retórica igualmente equivocada." E foi exatamente isso o que ocorreu em alguns momentos do espetáculo. Mas, como está claro, o diretor tem consciência do equívoco e, certamente, fará ajustes antes da estréia em São Paulo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.