Festival de Curitiba, muitas peças e pouca qualidade

Termina domingo, 1.º, a 16.ª edição doFestival de Teatro de Curitiba. A julgar pela programação dossete dias acompanhados pela reportagem - a mostra tem 11 -,pode-se dizer que foi mais uma edição opaca. Num festival queexibe números vistosos (mais de 200 espetáculos), um balançoinformal feito por alguns críticos e jornalistas na noite dosétimo dia destacou apenas um grande espetáculo entre os 21 damostra oficial, Besouro Cordão-de-Ouro, produção musicalcarioca dirigida por João das Neves com músicas de Paulo CésarPinheiro, que superou expectativas. No Fringe, até aquelemomento, entre os conferidos se destacava apenas a produçãocuritibana Os Leões, por sua qualidade muito acima da média(uma média bastante baixa, diga-se). É pouco para um festivaldesse porte. Números tão grandiosos - é nesse mote, ?ser o maior?,que os organizadores vêm apostando - deveriam ser no mínimoreveladores da real vitalidade da cena brasileira. O evento estálonge disso. No Rio, em São Paulo ou Belo Horizonte os gruposseguem criando, e conseguindo repercutir seus espetáculos, àrevelia desse festival que já foi importante vitrine para o bomteatro. O que mudou? Certamente o problema não está na ausênciade ?nomes famosos?, como já foi publicado na imprensa.Memória Divinas Palavras, dirigida pela alemã Nehle Franke comatores baianos, marcou a memória de quem a viu, na edição de1998. Lázaro Ramos e Wagner Moura eram ilustres desconhecidosquando entusiasmaram com A Máquina, de João Falcão, em 2000.Nesta mesma 9.ª edição do evento, brilhou Anjo Duro, solo deBertha Zemel dirigido por Luiz Valcazaras, na época mais uma das?apostas? do evento. Como se vê, não foram ?nomes famosos? que deramprestígio ao festival, mas boas montagens, que souberamharmonizar ousadia com domínio técnico. Nesse momento da cenanacional, não há como dizer que elas não existem. Talvez tenhamse afastado da cidade paranaense. Havia, claro, bons espetáculosnesta 16.ª edição como A Refeição, de Newton Moreno, ou Zonade Guerra, dirigido por André Garolli. Mas não salvam a mostrade seu maior equívoco: o inchaço provocado pelo Fringe, quedispersa a atenção de onde deveria estar focada - o investimentonuma programação enxuta e efetivamente representativa do que demelhor está sendo criado na cena nacional. Como já foi apontado em um manifesto assinado por 17jornalistas, ano passado, a organização do evento dirigido porVictor Aronis insiste em manter a mostra paralela nos moldes dofestival de Edimburgo, formatado numa Europa de dimensõesgeográficas reduzidas e formação sólida. Nesta última ediçãohavia cerca de 180 peças no Fringe. Menos de 5% vieram dasregiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Devido aos altos custosdo deslocamento, cada vez mais o festival ?nacional? torna-seRegional. 108 produções locais E caminha para ser uma mostra local. Nesta edição havia108 produções curitibanas. Para se ter idéia, sede de companhiascomo Galpão, Giramundo, Cia. Odeon e Espanca!, entre outras,Belo Horizonte é reconhecidamente uma capital de cena teatralintensa. Ainda assim, o número máximo de peças já reunidos nasua tradicional campanha de popularização foi de 93. Como se explica que uma cena menos vital como a capitalparanaense apresente 108 peças na programação da mostra? "Eufaço teatro há dez anos e no festival vejo surgirem nomes deatores e diretores sobre os quais nunca ouvi falar", diz o atorRodrigo Ferrarini, da Cia. Pausa. "No pico da temporada há nacidade no máximo 20 peças, mas a média é de 5", diz MicheleMenezes, produtora de Os Leões. "A maioria dos curitibanos sóvai ao teatro durante o festival." Cerca de 90% dessas 108 peças são comédias com títuloscomo Sou Ator, mas Não Sou Gay ou O que as Mulheres Pensamsobre Sexo ou ainda Eu Quero Sexo... - esta última há muitasedições está no Fringe. Evidente que existem algumas boas peçasnessa mostra paralela, mas corre-se inclusive o risco de não?descobri-las? em meio a uma profusão de montagens que nãoatingiram um patamar que justifique sua presença num festivalnacional que um dia se fez importante. Perde o público, perdemos artistas.Novos repertórios Diante desse panorama, as companhias Pausa, Os Leões, da Armadilha. O texto do espanhol Pablo Miguel de laVega Y Mendoza foi adaptado pelo ator Diego Fortes, que divide opalco com Alexandre Nero, sob direção de Nadja Naira. Direção eatores construíram uma partitura de ações físicas a um só tempocoreografadas com precisão e executadas com leveza, recursoperfeito para deixar ?saltar? o essencial do texto: um tempocircular em espiral, revelado pelas ações que se repetem compequenas alterações, e a perplexidade do ser humano diante daexistência. Sem alcançar a plena harmonia de elementos de Os Leões entre os conferidos, havia ainda outros bons espetáculos noFringe, entre eles Aperitivos, da Cia. Pausa. A produçãocarioca O Chá também se inclui entre as elogiadas do Fringe.Comendo Ovos, de Celso Cruz, tem como principal qualidadeexplorar a relação homossexual sob o ângulo do universomasculino, com sua violência intrínseca.É evidente a elaboraçãocuidadosa de Rumo à Terra, de Fátima Ortiz, que optou pelalinguagem dos bufões para levar ao palco as poesias de WaltWhitman, mas o resultado acaba sendo um confuso sarau que diluiem vez de potencializar a poética do autor. Dirigido por LúcioMauro Filho, alguns dos bons recursos cênicos do infantil Erauma Vez Dom Quixote de La Mancha acabam diluídos pelafragilidade das intérpretes em explorar tempos, ritmos,sonoridades vocais e cumprir marcações com precisão. Mais umavez, resta esperar um mudança de rumos para a próxima edição.A repórter viajou a convite da organização do festival

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