Eric Gaillard/Reuters
Eric Gaillard/Reuters

Festival de Cannes: A última seleção

Gilles Jacob, que se despede da presidência do evento, anuncia hoje filmes da competição

LUIZ CARLOS MERTEN, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2014 | 02h10

Gilles Jacob, de 82 anos, realiza hoje em Paris sua última coletiva de anúncio da competição do Festival de Cannes como presidente do evento. Ele será substituído por Pierre Lescure, de 68 anos, cofundador do Canal Plus. Ao longo de 50 anos, Jacob, o Cidadão Cannes, imprimiu sua marca no maior festival do mundo. A quem ele vai entregar sua última Palma? Os filmes que vão competir serão conhecidos hoje. O Brasil estará no lote? M. Jacob deu esta entrevista exclusiva por e-mail.

Jornalista em 1964, delegado-geral em 1976, presidente desde 1978. São 50 anos de Cannes, toda uma vida. Como foi, ainda está sendo, essa experiência?

Foi a mais extraordinária, enriquecedora, emocionante porque me fez conhecer os maiores nomes do cinema mundial, e de muitos tive a honra de me tornar amigo. Tive a chance de desenvolver o festival, de ajudar o cinema mundial e ainda levei uma vida de sonho, porque meu trabalho sempre me ofereceu o maior prazer que um cinéfilo pode ter - ver filmes e ajudá-los a viver.

Quando presidiu o júri, Roberto Rossellini só pensava em seu 'colóquio'. O senhor criou a Caméra d'Or e também fez seu colóquio, em 2000/2001, sobre as novas tecnologias. Como foi viver tantas mudanças do cinema?

Vivi muitas mudanças ao longo do meu itinerário cannois. Mas também as provoquei, ao criar a Caméra d'Or, a seção Un Certain Regard, a Cinéfondation (competição de filmes de estudantes), a Residência da Cinéfondation (Villa Médicis, onde acolhemos jovens realizadores para que escrevam o primeiro filme), o Atelier (que ajuda no financiamento). Todas essas ações foram coordenadas com o objetivo de ajudar a nascer e a se desenvolver uma nova geração de cineasta de todo o mundo. Eles representam o futuro.

Para o público, Cannes é, principalmente, o tapete vermelho. O senhor recebeu os maiores diretores, as estrelas. Poderia compartilhar algumas lembranças?

Teria muitas, porque, afinal, tive o privilégio de receber na montée des marches autores como Fellini, Huston, Kurosawa, Woody Allen, Coppola, Almodóvar, Wim Wenders, Polanski, Bertolucci, Scorsese, Spielberg, Resnais, Kiarostami, além de atores, atrizes e grandes escritores. Uma lembrança? Talvez a expressão de surpresa de Aki Kaurismaki, quando dancei um tango endiabrado com ele...

Imagino que o senhor não pressione os jurados para dar a Palma a este ou àquele filme, mas teve muitas surpresas? Filmes que gostaria que tivessem ganhado e não ganharam?

Nenhuma pressão. É a regra absoluta que sempre me impus, e a todos os meus colaboradores. Decepções, tive muitas, todos os anos, mas eu as guardo como meu maior segredo profissional.

No passado, o júri era formado por acadêmicos. O senhor mudou a regra. Por quê?

Desde que me converti em delegado-geral, o júri é formado principalmente por gente de cinema. Grandes diretores, atores, roteiristas e escritores que se interessam pelo cinema. Tento misturar as gerações, os países, as profissões, os sexos. O presidente é uma escolha conjunta do Conselho de Administração. Os demais jurados, pelo diretor e pelo presidente (eu).

O senhor tem os seus fiéis, os diretores que voltam sempre. Não consegue dizer-lhes não?

São os 'abonados'. É verdade que é difícil dizer não a Fellini, a Bergman e mesmo que não sejam seus melhores filmes, um filme menor de Fellini é sempre melhor que um filme bom de um autor mediano. Mas a missão de festival é também e acima de tudo descobrir novos talentos. Termina sendo o mais interessante para mim - acompanhar sua evolução, ver no que eles se convertem depois. Relações de estima e confiança recíproca se estabelecem de maneira duradoura. Nascem assim grandes amizades.

Qual é o segredo da sua resistência, noite após noite, sempre no alto da escadaria?

É a paixão pelo cinema, mas tenho de confessar que, com ou sem paixão, termino sempre o festival exausto. Aprendi que é como no esporte. É preciso dosar o esforço para chegar ao fim.

O senhor é muito elegante no seu black-tie. Quantos tem?

Tenho três smokings desenhados e fabricados por Agnès b especialmente para mim. São feitos em tecido antitranspirante, o que é fundamental.

Como vai ser sua vida após Cannes?

Vou consagrar o resto de minha vida à literatura. Já venho preparando minha reconversão, pois publiquei cinco livros nos últimos quatro anos. Mas é importante assinalar - estou largando a presidência, mas guardo uma presidência de honra e um lugar no Conselho Administrativo. E durante três anos ainda vou ser presidente da Cinéfondation, que é o meu bebê e vai muito bem. Nossa taxa - 68% de sucesso na realização de novos filmes. Pas mal, non?

Senhor presidente, seu filme favorito. Qual é?

São dois. A Regra do Jogo, de Jean Renoir, e Cidadão Kane, de Orson Welles. Um de meus livros chama-se Citizen Cannes, Cidadão Cannes, justamente buscando a analogia entre minha vida pessoal e profissional e o clássico de Welles.

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