Festival de Campos do Jordão amplia programação feminina

Evento começa neste sábado com concerto da Osesp no Auditório Claudio Santoro

Agencia Estado

06 de julho de 2007 | 16h28

Quando foi pedir conselhosprofissionais de um dos diretores da Filarmônica de Nova York,nos anos 70, a maestrina Eve Queler conseguiu uma respostabastante direta: "Esqueça isso. Há compositores, como Brahms eMahler, que não podem ser regidos por uma mulher." A história jávirou anedota mas é bastante significativa do machismo quesempre fez parte do mundo da música clássica. Hora, portanto, decorrigir os erros do passado, garante o maestro Roberto Minczuk,e assumir que as mulheres ocupam um espaço cada vez mais na área. Então, por que não dedicar toda uma programação a elas? É o quefaz a edição deste ano do Festival de Inverno de Campos doJordão - dr. Luís Arrobas Martins, que começa sábado comconcerto da Osesp no Auditório Claudio Santoro. "A idéia surgiu da observação de um cenário que mudoumuito nos últimos anos. O mundo da música clássica sempre foimuito conservador, acho até que é o mais conservador entre todasas artes", diz Minczuk. "Mas as últimas décadas têm trazidonovas tendências, estávamos sufocados por todo esseconservadorismo e, hoje, já nos sentimos mais abertos. Isso agente percebe no diálogo entre a música clássica e a produçãopopular, na maior liberdade que marca a atuação dos compositoresou mesmo na quantidade de programas educacionais que têm comoobjetivo atrair novas platéias. Acredito que o sinal maisevidente dessa mudança é a presença cada vez maior das mulheres,até mesmo em campos antes tidos como exclusivamente masculinos,como a regência, os instrumentos de metal ou a música de câmara" completa o maestro. E como passar esse conceito para a programação? Minczukcontabiliza cerca de 500 mulheres na programação, entre solistas integrantes de orquestras, professoras e alunas. Resolveuhomenagear três grandes artistas brasileiras: a pianista GuiomarNovaes, a compositora Chiquinha Gonzaga e a soprano Bidu Sayão,"três dos maiores artistas que o País já produziu". Comocompositora-residente, escolheu Jocy de Oliveira que, àsvésperas de completar 70 anos, continua na linha de frente davanguarda brasileira, em busca de novas linguagens musicais quedialoguem de alguma maneira com a nossa época e seus principaistemas - e o papel da mulher na sociedade, não por acaso, é umdeles, parte de "uma música que remete a um momento detransformação e aborda a luta pelos direitos da mulher e pelaigualdade", nas palavras de Minczuk. Mais: o maestro espalhoupelos 48 concertos da programação obras de 20 compositoras,muitas delas nunca executadas no Brasil; e, outras, apenas vagaslembranças na mente de nossas platéias, como Clara Schumann,Fanny Mendelssohn, Amy Beach, lista completada por brasileirascomo Mariza Rezende. As intérpretes, que completam a lista acima, são umcapítulo à parte. A maestrina paulistana Debora Waldman, atualassistente de Kurt Masur na Orquestra Nacional da França, rege aópera Rita, de Donizetti. Estrela do violão, a norte-americanaSharon Isbin faz suas primeiras apresentações no Brasil, o quevale também para a trompetista Alison Balsom e para as moças doEroica Trio. Também de fora vem a grande diva, dame Kiri TeKanawa, que canta Strauss acompanhada pela Orquestra SinfônicaBrasileira. Nossas mulheres estão representadas por artistascomo a pianista Cristina Ortiz, as sopranos Gabriela Geluda eRosana Lamosa, a violinista Elisa Fukuda ou a harpista RitaCostanzi. Mas elas não estão sozinhas, vão dividir o palco comhomens talentosos, o violoncelista Antonio Meneses, os maestrosAbel Rocha, Karl Martin e Ira Levin, os pianistas Jean-LouisSteuerman e Gerard Wyss. "Procuramos, enfim, levar a Campos pessoas emblemáticasnos contextos internacional e nacional, nomes consagrados, nomesque estão despontando e nomes importantes que ainda nãoestiveram no Brasil. E montamos programas com a preocupaçãoconstante de apresentar as grandes obras ao lado de estréias",diz Minczuk. Ao todo, serão estreadas em Campos 23 obras,algumas em primeira audição mundial, outras em primeira audiçãonacional. Entre os destaques, Mariinha, de Liduíno Pitombeira,que a Osesp interpreta sábado, o Duo para Viola e Violoncelo,de Rebecca Clarke, e o Quarteto de Cordas, de Ruth Seeger,além de obras de Galina Ustwolskaja ou Joseph Rheinberger.

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