Festival da Mantiqueira busca a 'bossa nova' da literatura

Qual seria a 'bossa nova' na literatura? Zuenir Ventura, Nelson Motta e Fernanda Takai debatem a questão

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

31 de maio de 2008 | 22h00

Qual seria o equivalente à bossa nova na literatura? A questão foi levantada durante o encontro entre os escritores Zuenir Ventura e Nelson Motta e a cantora Fernanda Takai, no terceiro encontro acontecido neste sábado, 31, do Festival da Mantiqueira, encontros literários que acontecem até domingo na cidade de São Francisco Xavier, distrito de São José dos Campos.  Veja também:Entrevista com Zuenir Ventura Leia capítulo do livro '1968 - O Que Fizemos de Nós' "Para mim, é a crônica, especialmente a praticada por Rubem Braga e Fernando Sabino nos anos 1960", disse Zuenir, autor do clássico 1968 - O Ano que Não Terminou (Planeta). "Pelo simples motivo que eles fugiam do estilo tradicional, mais rebuscado, para comentar o cotidiano de forma simples, elegante, engraçado."  Nelson Motta, que incentivou o trabalho de Fernanda Takai em regravar canções interpretadas por Nara Leão, concordou e ainda acrescentou o nome de Carlos Drummond de Andrade. "Embora sua crônica não fosse tão genial como a poesia, ele tinha o mesmo estilo despojado para comentar o cotidiano." Motta acrescentou que a crônica atingiu o auge em um momento histórico em que o Brasil buscava recuperar sua auto-estima.  "Foi especialmente durante o governo de Juscelino Kubitschek, chamado apropriadamente de ‘presidente bossa nova’: ele tinha uma alegria e um despojamento típico da época em que o brasileiro voltou a acreditar em si mesmo, principalmente depois da conquista da Copa do Mundo de 1958." Fernanda Takai, que faria um show apresentando as músicas do CD Onde Brilhem os Olhos Seus, notou ainda que as crônicas que escreve para jornais Correio Brasiliense e O Estado de Minas (reunidas no livro Nunca Subestime uma Mulherzinha, da Panda Books) refletem esse mesmo espírito de bossa nova, ou seja, textos confessionais e bem humorados. Na mesa anterior, o escritor Milton Hatoum contou sua relação com a literatura, justificando o largo período que separa cada um de seus quatro livros. "Literatura não pode ser fácil", explicou. "Afinal, não é auto-ajuda com suas fórmulas de bem viver. É algo mais complexo, que nos faz refletir sobra nossa vida." Apesar dos sentimentos exacerbados que muitas vezes marcam suas histórias, Hatoum revela-se um homem calmo, paciente. "Essa é minha aparência exterior", justificou. "Não sinto ódio por ninguém nesse mundo, mas, quando entro no mundo da ficção, aquele em que vivem meus livros, aí ponho todas minhas taras, meus ressentimentos para fora."

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.