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Festival arriscou ao apostar no 'novo'

Ineditismo de trabalhos das cias. não significa acréscimo de valor estético

HELENA KATZ - ESPECIAL PARA O ESTADO,

09 de maio de 2013 | 02h10

Não deixa de ser uma boa notícia a de que o Boticário elegeu a dança como a linguagem artística para associar à sua marca. Os problemas começam depois dessa escolha, tanto com a coleção de imagens perfiladas para sustentar o vínculo publicitário entre a empresa e a dança (em torno de "beleza em movimento") quanto com a oportunidade desperdiçada em inaugurar uma outra forma de fazer o posicionamento da sua marca.

A escolha foi por realizar um festival nos moldes dos anos 1980, e, para enfrentar nosso tempo de disseminação desenfreada de informação, tão diferente daquele, no qual os festivais tinham um papel de nos conectar com o mundo, entendeu que bastaria acomodar "novidades" na velha moldura. O principal entrave nasceu aí e ficou explicitado em uma programação que pensa "inédito" como sinônimo de "novidade", e que juntou quatro cias estrangeiras que estreavam no Brasil (o site apregoa que são inéditas na América Latina) com três cias brasileiras que dançaram obras de seus repertórios.

Das quatro estrangeiras, a que demonstra com mais clareza os riscos destes falsos sinônimos é o Maribor Ballet, companhia do Teatro Nacional Esloveno dirigida desde 2003 pelo coreógrafo romeno Edward Clug. A sua releitura de Romeu e Julieta (Radio&Juliet) é escolar em termos coreográficos e o desempenho do elenco confunde "mostrar técnica" com exibição de sequências de passos bem feitos. Lembra uma apresentação de final de ano dos melhores alunos da academia.

Do outro lado está o profissionalismo impecável de Shen Wei, chinês que assinou a coreografia da abertura da Olimpíada de Pequim, e a companhia que leva seu nome. Trabalhando em Nova York, demonstra domínio pleno sobre o seu fazer. Na sua Sagração da Primavera, brilha uma inteligência coreográfica que instiga, mas em Folding, abusou da exotização.

Hofesh Shechter, músico e coreógrafo israelense radicado em Londres, cuja companhia também leva seu nome, mostrou Political Mother com dez bailarinos que temperam qualidade e singularidade. O modo como a criação mistura materiais de danças tradicionais com vários outros aponta para uma linha investigativa que poderia ser valiosa, mas ainda lhe falta tônus dramatúrgico e timing.

Em São Paulo, o Grupo de Rua, fundado em 1996 pelo coreógrafo Bruno Beltrão, e a Quasar, dirigida desde 1988 por Vera Bicalho e Henrique Rodovalho, também seu coreógrafo, foram as duas produções brasileiras convidadas e compactadas em um mesma noite, com produções já apresentadas em palcos paulistanos. Seria desejável que futuras edições deste festival repensassem a maneira de se relacionar com a dança brasileira. Quem sabe, seguindo o exemplo de festivais que parece interessada em aqui reproduzir, que coproduzem obras para a sua programação.

A referência que fica do O Boticário na Dança foi deixada pelo grupo belga Peepin Tom, fundado em 2000 por Gabriela Carrizo e Franck Chartier, seu diretor artístico. Celebrado no circuito internacional, faz pensar em uma situação mais geral: a obra que mostrou, 32 Rue Vandenbranden, faz uma pergunta inquietante: será que a potência devastadora do que Alain Platel inaugurou lá mesmo, na Bélgica, sobretudo a partir de Bonjour Madame, em 1993, pôde se diluir a ponto de se usar os mesmos ingredientes e com eles somente desenhar uma linha que contorna um vazio? Com ela, podemos lembrar ao Boticário o risco de fazer o mesmo com o seu festival - o que seria lastimável para todos.

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