Festival aposta no experimental

No Rio, o 'Novas Frequências'traz artistas estrangeiros, nacionais e renomado produtor de música eletrônica

RAFAEL ABREU, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2013 | 02h19

É de certa forma engraçado que o músico Tim Hecker ocupe um espaço em vez de criar um. Respeitado no meio da música eletrônica ambiente e drone, Hecker trabalha com as chamadas "soundscapes", paisagens em que o som é a referência cartográfica, o norte e o sul de seu "país imaginário", nome de um de seus discos. Um órgão distorcido ou pequenos trechos de piano, em suas mãos, se embaralham, transformando-se em grossos caldos de som estático e inquieto, no caso de Virgins, seu último disco mais recente, lançado este ano.

Música bastante impressionista, portanto. A abstração é a palavra de ordem, na sonoridade e no processo criativo que conduz Hecker a ela. Feito a partir de sessões ao vivo de um conjunto de instrumentistas e pelo próprio Hecker na Islândia, a direção do projeto é um tanto peculiar: "O trabalho com os músicos foi bem fácil: pensar uma trilha básica da frase que eles deveriam tocar e orientá-los para 'modos de performance' como 'E se o Chewbacca bebesse 50 galões de xarope para tosse e tentasse cantar em voz barítona através de um clarinete baixo?'", explica o músico.

A frase pode parecer uma piada, e talvez seja: Hecker, apesar de trabalhar com música solene, mostra algum senso de humor nesta e em outras entrevistas. Mas a ideia de trabalhar com linguagens abstratas - ele sugeria que alguns músicos inspirassem suas performances em quadros, por exemplo - não parece improvável, diante de faixas como Prism ou Virginal I, tão gigantescas quanto precisas e detalhadas em suas intenções de assombro tenso.

O mistério de sua música, aliás, remete ao que espera fazer em sua apresentação no Rio, durante o Festival Novas Frequências, no dia 8 de dezembro. "Estou interessado em canalizar os sentidos para o som puro. Isso significa duas coisas: o uso de volume alto e a restrição da visão como um meio de entender a experiência ao vivo", esclarece. É por isso que prefere se apresentar no escuro ou em ambientes mal iluminados e esfumaçados para que a plateia dê mais atenção à música do que a visão que se tem dela.

A noção de um som "sem corpo", cuja origem não se identifica facilmente, tem relação estreita com Virgins. A diferença essencial deste trabalho para o resto de sua produção, geralmente mais suave, é que a presença forte da mescla de instrumentos gravados ao vivo e sons e efeitos digitais se intensifica. "'Instrumentos falsos' são cada vez mais difíceis de distinguir de peças 'reais' gravadas no espaço", afirma. Algo que faz com que o ouvinte caminhe entre a ficção e o documentário, discernindo partes do todo, mas nunca com a certeza sobre o que elas são de fato, de que tipo de instrumento vêm e que nível de distorção sofreram.

Festival. A terceira edição do Festival Novas Frequências - que ocorre no Rio de hoje ao dia 8, no Oi Futuro Ipanema - é um acontecimento raro no panorama de eventos musicais brasileiros. Criado pelos produtores culturais Chico Dub e Tathiana Lopes em 2011, tem porte pequeno, mas faz as vezes de ponta de lança num mercado que ainda engatinha no País.

Foi a constatação de um vazio mercadológico que levou Dub a pensar seu formato, voltado para música experimental de vanguarda, com ênfase em música eletrônica. "Eu via que se fazia um trabalho de registro da cena nacional, mas isso não acontecia com artistas de fora. Daí que surgiu o Novas Frequências: a proposta era documentar uma cena emergente de artistas de novas tendências que o Brasil estava ignorando", explica o produtor.

Além das apresentações, o festival inclui um ciclo de debates chamado "Talking Sounds", em parceria com o British Council. De acordo com Lucimara Letelier, diretora adjunta de artes da instituição, a intenção da série de conversas é fazer um debate que não é tão feito no Brasil, com discussões sobre a indústria e o processo criativo das vanguardas musicais.

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