Festejos de Cabeça Dinossauro revigoram trajetória dos Titãs

Grupo usará parte do show em apresentação no Réveillon da Av. Paulista

EMANUEL BOMFIM , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

29 Dezembro 2012 | 02h08

Em 22 de junho de 1986, a edição do Caderno 2 do Estadão deu uma página inteira para falar sobre o lançamento de Cabeça Dinossauro, terceiro disco na carreira dos Titãs. E foi entusiasta: "A grande surpresa do ano. Que som é esse? É um disco chocante, punk, nervoso e muito curioso. Um disco de rock-veneno, um grito", dizia o texto de Alberto Villas. O forte impacto inicial realmente não se mostrou passageiro e, rapidamente, o álbum ganhou status de clássico absoluto do rock brasileiro. Tão clássico que virou motivo de reverência num ano em que a reformulada banda paulistana completou seus 30 anos de existência.

"A gente nem cogitava essa hipótese de revisitá-lo, achávamos que era uma moda de gringo", conta o vocalista e agora guitarrista Paulo Miklos. Tudo começou com um convite do Sesc Belenzinho para participarem do Projeto Álbum, dedicado ao resgate de vinis antológicos. Os ingressos para os sete shows se esgotaram em pouco mais de duas horas e o grupo viu que o sentimento nostálgico tinha potencial para virar um registro.

O novo Cabeça Dinossauro, ao vivo e lançado em CD, DVD e Blu-Ray, tem mais do que canções de um Titãs em estado de graça. Em seus meros 45 minutos, ele recupera o espírito punk do álbum original, quando a cena rock se viu invadida por slogans contundentes, críticas pesadas às instituições e riffs de guitarras poderosos. O registro é todo em preto e branco, configurado a partir de câmeras nervosas, que dão ao espectador a sensação muito próxima de estar no meio da plateia. "A gente conseguiu fazer um DVD com a pegada que temos ao vivo. Tivemos um conceito de captação das imagens bem cru, sem gruas, sem muito aparato técnico", explica Branco Mello, vocalista e baixista na formação atual, que ainda conta com Tony Bellotto (guitarra solo), Sergio Britto (vocais e teclados) e Mario Fabre (bateria).

Gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em junho deste ano, o trabalho foi todo bancado e produzido pelos Titãs, que hoje atuam como banda independente no mercado fonográfico. Só depois de finalizado que a Universal foi chamada para dar conta da distribuição. "O primeiro show a gente filmou só com uma câmera. No segundo, ampliamos para oito", descreve Branco, parceiro antigo de Oscar Rodrigues Alves, diretor desta nova empreitada. "Ele compreende muito o que são os Titãs", elogia.

O show respeita a ordem original das faixas de Cabeça Dinossauro e quase não há interação dos integrantes com aquela massa de antigos e novos fãs. É uma pedrada atrás da outra, só abrandada pelo reggae Família. Rodinhas de roqueiros se formam no meio do Circo enquanto a banda promove a catarse geral com clássicos como Igreja, Polícia, Bichos Escrotos, AA UU e a emocionante Tô Cansado. "Esse disco é muito importante porque permitiu que revisitássemos o DNA da banda, de buscar aquele momento em que cristalizamos o que é nossa personalidade", avalia Paulo Miklos.

Segundo Mello, o próximo trabalho de inéditas dos Titãs, previsto para o segundo semestre de 2013, naturalmente será contaminado por esta veia contestadora e roqueira do show do Cabeça. "Coincidentemente, nós já estávamos planejando e ensaiando um disco mais ardido", comenta. "Espero que as pessoas percebam como estamos revigorados. Só faz sentido estar no palco com esse pique", reforça Miklos.

Para coroar um ano farto de comemorações dos 30 anos, a banda vai se apresentar na festa de Réveillon da Avenida Paulista, em São Paulo, nesta segunda-feira. Uma performance que seguramente estará mais próxima do que foi a celebração de aniversário no Espaço das Américas (em outubro e com membros da formação original) do que este apresentado no DVD. "Não vamos deixar de tocar músicas do Cabeça, mas temos a preocupação de divertir um público tão heterogêneo", pondera Branco Mello.

Acostumado a grandes plateias, como quando abriram para o shows dos Rolling Stones na praia de Copacabana, eles apostam nas próprias origens para conquistar a devoção dos milhares de presentes. "A maneira como a gente se apresenta tem uma verdade muito grande da gente. Não tem pose. A gente faz um espetáculo de rock and roll", conclui Miklos.

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