Festas brasileiras em foto

Tornou-se clichê falar de um Brasil que o Brasil não conhece. Ainda mais repetitivas são as tentativas de desvelar essa diversidade. Há, porém, alguns aspectos que, por mais explorados que sejam, continuam oferecendo condições para mostrar esse país fragmentado. A cultura e a religiosidade talvez sejam os mais plurais dentre todos. A fotógrafa Rosa Gauditano descobriu isso na prática. Durante sete anos, ela percorreu vários Estados e registrou centenas de imagens de manifestações culturais e religiosas. A partir dessa quinta, 34 delas poderão ser vistas na exposição Cores e Festas, aberta no Sesc São Caetano.Na realidade, essa mostra já foi vista pelo público paulistano em 1994, na galeria da Aliança Francesa. É um resgate bem-vindo, já que se tratam de imagens que ganham força com o tempo. O título da exposição é preciso, já que as fotografias de Rosa Gauditano são uma festa de cores para os olhos. Elas registram manifestações como o bumba-meu-boi, de Parintins (AM), as festas do Divino, de São Luís de Paraitinga (SP) e Pirinópolis (GO), a folia de reis e a congada, em Minas Gerais, a missa dos vaqueiros, em Serrita (PE) e o Corpus Christi, em São Manuel (SP), entre outras.Segundo Rosa, as principais manifestações culturais brasileiras têm três origens: a indígena, a africana e a ibérica. "É incrível como elas influenciam umas às outras, misturando o sacro ao africano", diz a fotógrafa. "O bumba-meu-boi, por exemplo, possui características da cultura africana, mas incluiu o boi, que é uma imagem adorada na Antigüidade."Nos períodos que passou nas localidades onde eram realizadas as festas, Rosa percebeu a importância das mesmas para os habitantes. São, ao mesmo tempo, uma forma de preservar a cultura local e reforçar a união entre as pessoas. "Durante as festas, toda a população se mobiliza e participa; um faz a roupa, outro a comida e até as crianças ajudam", conta Rosa. "Essas manifestações cumprem uma função social muito importante além de preservar a tradição."Em São Luís do Paraitinga, a fotógrafa conheceu dona Cinira, uma senhora que construía bonecos para a Festa do Divino e é uma figura fundamental na transmissão da cultura para a nova geração. "Todos os seus filhos são músicos, os netos enfeitam-se na festa, sempre com ela ajudando", lembra Rosa.Sentido à vida - "As pessoas que participam dessas festas acreditam naqueles ícones", afirma a fotógrafa. Ela diz que aquilo serve para empurrar e dar sentido à vida de uma gente que sobrevive com muito custo, vivendo muitas vezes isoladas do resto do País. No momento em que cantam e dançam, elas esquecem de suas mazelas."A grande parte da nossa população acha estranho e não dá a devida importância a essas manifestações; o brasileiro não tem amor às coisas daqui", lamenta Rosa. "Muitas vezes as pessoas acham mais importante viajar ao exterior do que conhecer o nosso interior."Uma das imagens mais emocionantes captadas por Rosa é a da missa dos vaqueiros, que todo ano reúne centenas de sertanejos montados, vindos das regiões mais inóspitas do interior de Pernambuco. Gente extremamente simples, que abre mão do pouco que tem para oferecer aos santos de sua devoção. Até mesmo cavalos são ofertados. "É impressionante como, de repente começam a chegar vaqueiros de todos os lados, repartindo queijos, farinha, sempre movidos pela fé."A mostra Cores e Festas será inaugurada às 19h30 com a apresentação do grupo Cachueral, criado há seis anos com o objetivo de realizar pesquisa teórica e prática dos repertórios populares afro-nordestinos. Na apresentação de amanhã será mostrado o Moçambique valeparaibano, antiga dança de escravos originada da tradição indígena e européia e usada como forma de louvar o padroeiro São Benedito. O grupo também vai apresentar o jongo, dança tradicional praticada por escravos nas antigas fazendas de café de São Paulo, do Rio e de Minas Gerais.Ao mesmo tempo em que reabre a exposição, Rosa Gauditano está procurando patrocinadores para ajudar a publicar um livro com as imagens. Ela ainda planeja outra publicação, intitulada Raízes do Povo Xavante, ligada a um projeto que a fotógrafa vem desenvolvendo há quase uma década sobre a cultura indígena. A dedicação à causa dos primeiros habitantes do Brasil renderam imagens tão belas quanto as vistas em Cores e Festas. Em comum, a preservação da história de um País que, após 500 anos, ainda não se conhece.Cores e Festas. Exposição da fotógrafa Rosa Gauditano. De amanhã a 2/9. Entrada gratuita. Sesc São Caetano. Rua Piauí, 554, tel.: 4229-8288

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