Festa que arrebata o público

Releitura de Lehár como crônica da orgia financeira na era globalizadaencanta a plateia

Crítica: Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S.Paulo

03 de dezembro de 2010 | 00h00

Certa vez os amigos do célebre tenor austríaco Richard Tauber (1891-1948) o recriminaram por emprestar sua voz, ligada ao repertório mozartiano, à linguagem popular das operetas, acusando-o de falta de gosto. A resposta do cantor: "Eu não canto operetas, canto Franz Lehár." De fato, passados exatos 105 anos da estreia de A Viúva Alegre em Viena, a ópera de Lehár se distingue no gênero como um cruzamento feliz entre seu libreto crítico e um discurso musical tão delicado como divertido. Com um diretor atento a essa combinação, Lehár ainda tem muito a dizer sobre corrupção política e o impossível trânsito interclassista. Se, no vasto império austro-húngaro, a opereta alfinetava os emergentes dos Bálcãs, empenhados em copiar o que havia de pior nos grandes países vizinhos, o diretor William Pereira hoje se encarrega de buscar seus correspondentes do mundo globalizado.

Há graça e inteligência em sua montagem de A Viúva Alegre. Mais: há atores sintonizados com a direção, vozes a serviço do conjunto, uma coreografia inventiva, iluminação que valoriza os cenários, figurinos alegres e uma orquestra afinada sob regência de Emiliano Patarra. William Pereira prova, enfim, que a felicidade pode existir, nem que seja apenas por três atos de uma obra destinada ao sucesso desde sua estreia. A julgar pela resposta do público na primeira récita, anteontem à noite, não há como ignorar esse incontestável êxito.

O que Stroheim fez pela versão muda e Ernst Lubitsch pela cantada, no cinema, William Pereira faz em sua transposição da opereta para o Theatro São Pedro. Conta para isso com um elenco de cantores que, a exemplo de Tauber, não consideram a opereta um gênero menor. A soprano Gabriella Pace, como a jovem e rica viúva Hanna, parece, de fato, sob o efeito do "toque Lubitsch": tudo nela é delicado, insinuante. Sua bela figura, combinada a uma versatilidade vocal incomum (ela já foi Musetta, Micaela e Violeta), respondeu às exigências da nostálgica canção de Vilja, em que Hanna evoca a memória de sua terra natal e sua condição de simples camponesa nos Bálcãs, antes de virar uma viúva rica. Há também nessa canção uma referência do próprio Lehár a um passado mais alegre do império austro-húngaro, que, então, já mostrava sinais de declínio.

A direção de Pereira não deixa escapar a possibilidade de um aggiornamento desse colapso, associando a falência do império austro-húngaro à orgia financeira que ameaça o mundo globalizado. Ele opta, por exemplo, pela versão original alemã que, no terceiro ato, ambienta a festa do Maxim"s na casa de Hanna (na versão francesa, ela acontece no próprio Maxim"s). O simulacro do badalado restaurante na casa de uma viúva que pode salvar um país balcânico da bancarrota é uma crítica divertida ao nouveau-richisme dos novos sheiks.

Todos se divertem nessa metafórica festa regada a champanhe e mau gosto. O cenário reproduz o imaginário patético dos deslumbrados por onde circulam tipos como casal formado pelo barão Zeta (o barítono Saulo Javan) e sua infidelíssima Valencienne (soprano Edna D"Oliveira). Empenhado em arranjar casamento para a viúva - e garantir a salvação de seu falido país - Javan está impagável como Zeta, tentando convencer o conde Danilo (o barítono Pedro Ometto) a aceitar sua antiga namorada pobre (e agora viúva alegre e rica) abandonada por imposição do tio, o monarca de Pontevedro (uma brincadeira de Lehár com Montenegro).

Surpreende como o coreógrafo Paulo Goulart Filho conseguiu abrigar todas as seis "grisettes" (as garotas liberadas do Maxim"s, vestidas de coelhinhas), 12 bailarinos e o coro num palco de dimensões limitadas como o do São Pedro - e, claro, evitar colisões. A rigor, não há separação de papéis. Todos cantam e dançam (bem), do elenco principal ao de apoio. Mais uma vez, Gabriella Pace é um milagre no palco. A outra Gabriella (Rossi), que reveza com ela o papel neste fim de semana, tem também muito talento e um currículo admirável - fez master classes com Kiri Te Kanawa e estreou há dois anos no festival Gilbert & Sullivan.

Naturalmente, pequenas falhas de estreia já devem ter sido corrigidas para as récitas deste fim de semana, uma delas a extrema luminosidade do primeiro ato, que prejudicou a leitura das legendas. De qualquer modo, isso não bloqueou o entendimento do libreto, ao qual William Pereira acrescentou irônicos metacomentários sobre a natureza da opereta como "gênero menor". Ele não prioriza a dicotomia "grande ópera" versus opereta. Antes, mostra como tudo depende de um grande diretor.

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