Festa para Guel Arraes

Diretor é homenageado no 14º Cine PE e mostra o seu O Bem-Amado, previsto para estrear em julho

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

28 de abril de 2010 | 00h00

Foi uma ovação extraordinária - Kleber Mendonça Filho mostrou segunda à noite no Cine PE seu curta (premiado em Brasília) Recife Frio. Era o filme certo para a plateia certa. Na fantasia de Mendonça Filho, uma misteriosa nuvem estaciona sobre a capital de Pernambuco, ocasionando uma radical mudança climática. O sol desaparece, a temperatura baixa, pinguins ocupam as praias e ocorre uma verdadeira revolução de ambientes e comportamentos. O público adorou. Risos, aplausos (em cena aberta). Recife Frio abriu o 14.º Cine PE - Festival do Audiovisual, de certa maneira ofuscando (um pouco) a grande atração da noite, O Bem-Amado de Guel Arraes.

Guel, afinal de contas, estava sendo o homenageado do Festival do Recife. Para retribuir, trouxe o longa apontado para estrear em julho. O Bem-Amado foi bem recebido, mas não houve aquele plus a mais, como Daniel Filho gosta de dizer. Foi, de qualquer maneira, uma sessão muito interessante. Integrante de uma família de políticos - o pai, Miguel Arraes, foi governador de Pernambuco; seu sobrinho, Eduardo Campos, é o atual governador do Estado -, Guel admite que o principal motivo que o levou a fazer o filme foi ideológico.

"Queria falar sobre política. É um universo que conheço bem. A questão política é tão forte no Bem-Amado que tenho de confessar que a linguagem foi secundária. Meu desafio foi atualizar a saga de Odorico Paraguaçu. A peça situa-se em 1962, na fase democrática que precede o golpe militar. Há toda uma transposição da questão política no filme. É grande o interesse do público pelo assunto hoje. Mas, embora humor se faça contra, não queria fazer um filme que só batesse nos políticos."

Abertura. Odorico Paraguaçu, o lendário personagem da peça - e da novela, que deu origem a uma série - de Dias Gomes, virou referência de corrupção na política. Até por sua vinculação com o tema - o pai, o sobrinho, a família toda -, Guel queria criticar os políticos mas não generalizar. Queria que houvesse, de qualquer maneira, uma abertura - e o filme se encerra com as imagens da campanha das diretas-já, nos anos 1980, que forçaram a abertura política. "Tudo isso foi muito pensado", diz Guel. Comparativamente, a questão da linguagem é mais forte nos filmes anteriores - Lisbela e o Prisioneiro e Romance, que o diretor concorda ser seu trabalho mais autoral. "A questão da linguagem em O Bem-Amado é a eficiência do seu humor." Mesmo sem arriscar previsões, ele está otimista.

"A sessão de ontem (segunda) foi a primeira do filme com público. As pessoas reagiram bem. Mas não quero fazer previsões. Independentemente de os filmes serem bons ou não, o tema é que alavanca o sucesso. Espiritismo revelou-se um grande tema e Chico Xavier está bombando. Lula, apesar da popularidade do presidente, foi um tema que não colou e o filme se ressentiu disso."

A política, portanto. Mas há uma mudança essencial em relação ao Bem-Amado da lenda - aquele criado por Paulo Gracindo. O novo intérprete do papel é Marco Nanini, parceiro de Guel, a quem ele "treinou" na remontagem da peça (que ele próprio adaptou).

A mudança não diz propriamente respeito a Nanini, mas às Cajazeiras. As três irmãs eram carolas na versão antiga, mas consumidas pelo fogo do desejo que expressava aspirações (necessidades?) das mulheres que eles conseguiam verbalizar, no pós-feminismo. As Cajazeiras antigas eram Dorinha Duval, Dirce Migliaccio e Ida Gomes. As novas são peruas sedentas de sexo, interpretadas por Andréa Beltrão, Zezé Polessa e Drica Moraes.

Ao contrário de Nanini e Andréa, Guel nunca havia trabalhado com Zezé e só um pouco com Drica. "Elas tiveram três semanas de preparação e não precisaram de mais. São ótimas, acho que referendam um diferencial importante do filme."

O diretor começou a pensar em O Bem-Amado depois de Lisbela. Adquiriu os direitos, mas, para não emendar comédia com comédia, lançou-se antes ao projeto de Romance. Ninguém é mais crítico do que Guel em relação ao próprio trabalho. É diferente da sua produção televisiva, o humor com inteligência ou uma camada de experimentação de linguagem, embora tudo isso transpareça em seus filmes. O Bem-Amado pode ter menos pesquisa formal, mas Guel faz dialogarem cinema, TV e até quadrinhos (numa cena que provocou reações hilárias do público).

Ele estava tranquilo, ontem pela manhã, quando conversou com o Estado. Revelou que a noite havia sido emocionante. "Não sou identificado com o que chama de cinema pernambucano, mas sou daqui. Falo de política e na plateia estavam muitas pessoas da minha família, incluindo meu sobrinho governador. Ser aplaudido de pé por mais de 2 mil pessoas superou toda expectativa que pudesse ter. Nunca pensei que isso fosse ocorrer, e não creio que vá se repetir."

Amigos e colaboradores subiram ao palco do Cine-Teatro Guararapes para a homenagem. Marco Nanini entregou o troféu Calunga especial para o diretor, que estava cercado pela produtora Paula Lavigne e por atores como Caio Blat, Maria Flor e Andréa Beltrão. Pela manhã, Guel, com outros colegas cineastas, já fora homenageado na Câmara Municipal do Recife. Recebeu uma placa comemorativa por sua atividade em prol do audiovisual no País.

Todos os políticos possuem a referência de Odorico Paraguaçu e queriam comentar o personagem com ele. Com o público, ocorre a mesma coisa. E muitos jornalistas também fizeram comparações com o "velho" Bem-Amado. "É natural que isso ocorra, mas os tempos são outros e os personagens mudaram para se adaptar. No teatro ocorria a mesma coisa. As pessoas comparam. Tinha gente que gostava mais, outros menos. Só espero que o público veja. Sou um diretor popular, mas tenho meus fracassos no currículo. Espero que esse filme, pelo muito que significa para mim, não seja um deles."

O REPÓRTER VIAJOU A CONVITE DA ORGANIZAÇÃO DO FESTIVAL

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