Festa literária agita UPPs no Rio

Escritores que frequentam a Bienal do Livro ( no Rio e em São Paulo) e a Feira Literária Internacional de Paraty (Flip), como Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro e Ferreira Gullar, sobem o morro de quarta-feira(7) a domingo para falar a um novo público. Eles vão participar da primeira edição da Festa Literária Internacional das Unidades de Polícia Pacificadora (Flupp), que vai receber também autores estrangeiros.

ROBERTA PENNAFORT, Agência Estado

06 de novembro de 2012 | 17h09

Pacificado há um ano e nove meses, o Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, na região central do Rio, foi escolhido numa lista de 28 favelas que também se livraram dos traficantes armados pelas ruas com a chegada das UPPs. "Queríamos fugir da zona sul, para não esbarrar no clichê da praia, mas também não dava para radicalizar demais. Por isso preferimos o centro da cidade", conta o escritor Julio Ludemir, um dos organizadores.

Com o discurso de levar os debates para além da questão da segurança, ele buscou patrocínios de gigantes como Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Petrobras, Vale e Itaú, e apoio de organismos internacionais, como o British Council e os institutos Cervantes (da Espanha), Goethe (Alemanha) e Camões (Portugal), que subsidiam a vinda de atrações como do autor alemão, Thomas Brussig, e do mexicano, Juan Pablo Villalobos.

Ludemir, no entanto,não conseguiu sensibilizar as editoras brasileiras. "Não veem que a classe C não tem apenas o novo consumidor de celular ou de TV de tela plana, e que existe também um novo leitor".

A ideia da Flupp surgiu da constatação de que existe demanda nas classes pobres por eventos do gênero, tanto que há nas comunidades interesse pela Flip, o modelo inspirador, com autores reunidos em mesas e conversando diante do público sobre assuntos variados.

A preparação foi a Flupp Pensa, que de abril a julho chamou autores a treze comunidades e promoveu oficinas literárias. Como em todas as iniciativas voltadas à leitura, o foco está nos jovens, na premissa de que "ler é legal". O homenageado da festa é Lima Barreto, escritor do início do século 20 que retratou o subúrbio, as desigualdades sociais e a discriminação racial.

A curadoria, do jornalista Toni Marques, buscou variar a programação. Além das falas dos escritores (19 brasileiros e 17 estrangeiros), haverá apresentações musicais, exposição sobre Lima Barreto, um painel a ser finalizado por dezenas de grafiteiros e intervenções teatrais, além de um braço infantojuvenil.

Segundo o tenente Maicon Pereira, comandante da UPP dos Prazeres, a quadra onde será instalada a tenda Policarpo Quaresma, principal espaço da Flupp, no acesso mais movimentada dos Prazeres, no passado foi utilizada para bailes funks e pagodes organizados por traficantes. "Antes da UPP, seria inviável um evento desse, os escritores não compareceriam. A população (30 mil pessoas) está gostando, até porque a maior parte da mão de obra empregada é local, e isso gera renda."

A escritora de origem caribenha radicada em Londres Yvvette Edwards vem empolgada para ver "o Brasil real". "Muitas pessoas acreditam que os eventos literários são elitistas, mas estando numa favela estamos mandando uma mensagem clara de que todo mundo é bem-vindo, de que temos que derrubar barreiras."

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