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Festa dos solitários

Sete anos no quarto desta edícula e agora dou adeus às quatro paredes, uma delas aberta para um pequeno jardim.

Milton Hatoum, O Estado de S.Paulo

02 Dezembro 2016 | 02h00

Aqui, escutei o canto do sabiá-laranjeira, senti a carícia do sol matinal, a aspereza do sol da tarde, e quantas viagens fiz com esta pena, olhando para dentro de mim, à espera de uma cena oferecida pela memória ou pelo esquecimento, parando para olhar as romãs desventradas por um pássaro faminto ou escutar conversas no restaurante ao lado:

“Hoje, eu falei com a nossa amiga... Ela está bem... Vai viajar pra Paris”. 

Paris está mais melancólica, escreveu Françoise na última carta. “O Marais não é mais uma festa, a happy hour virou sad hour. Vi uma fila enorme em Châtelet, eram os refugiados à espera de uma sopa, servida por voluntários compassivos.” 

O restaurante vizinho servia pratos do sul da França, agora o cardápio é marroquino. As iguarias viajam de porto a porto: Marselha, Tânger, Pireu... De Gibraltar à Sicília, o mar acolhe milhares de náufragos, o Mediterrâneo é o mais vasto cemitério marinho, mar de tempos sombrios, imenso mausoléu dos que apenas queriam viver... 

Bateu uma fome nesta edícula, são quase três da tarde e ainda não encaixotei todos os livros... Dona Vivinha carrega um balde e um rodo, ela faz faxina na casa do meu senhorio, acorda às cinco e meia, pega dois ônibus e o metrô. 

“Vou fazer 74 anos e rezo pra não adoecer, meu filho. Minha pensão é uma mixaria... E esses cachorros não tomam jeito! Roubam até a merenda dos estudantes...” 

No fundo do rosto surge um olhar de três séculos de sofrimento e revolta... A música, as vozes e o barulho de talheres cortam nossa conversa, daqui a pouco o restaurante ficará vazio, o mundo fica vazio e silencioso quando a pena desliza no papel. 

Aqui, ressuscitei minha mãe, boca a boca: ela reapareceu quando um inseto sentimental pousou na imagem de um rosto em preto e branco. Tão longe, as mães que partiram... Agora são ossos, aquele vestido azul virou farrapos, os cabelos tingidos são chumaços de algodão, mas como gostaria de acariciá-los, mãe. 

Lembro tuas palavras no leito da morte: “Não tirem meu relógio, quero saber as horas quando estiver lá embaixo”. 

Os parentes e amigos não riram, mas teu filho riu e tu entendeste... Que horas são? Teu relógio parou de funcionar há anos, a única eternidade é o agora, nem um minuto a mais... A eternidade é o desejo do instante: o beijo inadiável, a tinta cobrindo o branco do papel: nuvem escura expelida pelo polvo em perigo.

Deixamos tudo para trás: a cidade, o rio, o jambeiro no centro do quintal, as pitangueiras floridas... Tudo se distancia no tempo, menos a infância, o amor e a amizade, portas abertas para sempre...

Quando encaixotava os livros, encontrei uma edição da poesia de Paul Celan, traduzida por João Barrento e Y. K. Centino: 

“Que tempos são estes/em que uma conversa/é quase um crime,/porque contém/tanta coisa dita?”.

Tudo termina com a palavra ou o silêncio. Paul Celan e as palavras que insinuam o silêncio. Tudo recomeça em outro lugar... O pássaro visitará o próximo inquilino e cantará para ele, outras vozes falarão no restaurante vizinho, um outro olhar será atraído pela beleza da romã... 

Daqui a pouco vai embora a caridade, mas a dança da imaginação permanece. Escrever e ler são os mais confidentes dos nossos sonhos; a escrita e a leitura, a grande festa dos solitários.

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