Festa do bando Olodum em Sampa

Grupo baiano celebra 20 anos de cena com mostra de repertório

Beth Néspoli, O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2010 | 00h00

Ao completar 20 anos de trajetória, o grupo de teatro baiano Bando Olodum tem muito a celebrar. Afinal, o que causava estranheza e incompreensão nos primeiros espetáculos na década de 90, a transposição em linguagem teatral da identidade negra baiana, atualmente alcançou o reconhecimento de criação estética relevante. Como parte das comemorações de aniversário, os 16 atores dessa companhia dirigida por Márcio Meirelles - atual secretário de Estado da Cultura da Bahia - apresentam no Sesc Vila Mariana três peças de seu repertório: o musical Cabaré da RRRRRaça, o infanto-juvenil Áfricas e o espetáculo Ó Pai, Ó, que já se desdobrou em filme e série televisiva. O grupo ainda aproveita a passagem pela cidade para ministrar oficinas e realizar bate-papos com o público sobre sua história e seu trabalho.

Márcio Meirelles era já um diretor de prestígio em fins dos anos 80 quando ministrou o curso teatral para atores negros que deu origem ao Bando de Teatro Olodum. "Nessa época, eu sentia a ausência do negro no palco", diz Márcio Meirelles. Para quem estudara mitologia grega e teatro oriental, chegava a ser um mistério que as festas afro-brasileiras ainda não tivessem inspirado uma estética teatral.

"Minha tese era a de que os ritos de candomblé eram como óperas: tinham música, dança, narrativas de sagas de heróis. Se tanto as tragédias gregas quanto o teatro nô japonês têm origem nesses mitos heroicos, por que os rituais afro-brasileiros ainda não tinham se tornado teatro?" Artista de classe média e formação europeia, considerado branco, ele mesmo tinha conhecimento superficial dessa Cultura. "Mas vivia uma crise, achava que havia uma distância grande entre público e palco."

A guinada na carreira encontraria obstáculos. Na primeira criação, Essa É Nossa Praia, o grupo foi confundido com projeto social. "Eram todos atores, alguns de classe média (entre eles, na época, estava Lázaro Ramos), mas as pessoas confundiam, achavam que eles narravam suas vidas. Ficou quatro anos em cartaz, mas só quando fomos ao Rio e Caetano Veloso elogiou, o trabalho foi referendado." Esse primeiro espetáculo já trazia personagens que voltam em outros, em situações e histórias diferentes, como a vendedora de acarajé, o homossexual, a advogada e a cantora. "Como na Commedia Dell"Arte ou no mamulengo, são figuras representativas e não individualizadas; não há uma construção psicológica."

Passadas duas décadas, o Bando Olodum encurtou a distância entre palco e plateia. "Os atores apontaram o caminho para a linguagem que eu buscava. Assino direção e texto final, mas o que faço é quase a edição da produção do grupo em sala de ensaio. Nesse processo, o Olodum sedimentou sua estética marcada pela expressão física forte, a musicalidade na fala, a música propriamente." Veio logo depois do "referendo" de Caetano a criação do Cabaré da RRRRRaça, o primeiro a ter 60% de espectadores negros. Até então, uma pesquisa revelara, apenas 1% do público teatral baiano era negro.

PROGRAMAÇÃO

Cabaré da RRRRRaça

Hoje e sábado - 21h

Domingo - 18h

16 anos. 1h30

Texto -Márcio Meirelles e Bando de Teatro Olodum

Direção - Márcio Meirelles

Direção musical - Jarbas Bittencourt

Coreografia - Zebrinha

Na forma de revista musical, aborda temas polêmicos como o negro na mídia, identidade racial, cotas nas universidades.

Áfricas

Dia 17 - 15h30

Dia 18 - 11h

Livre. 50 min

Texto - Chica Carelli e Bando de Teatro Olodum

Direção - Chica Carelli

Música e direção musical - Jarbas Bittencourt

Coreografia - Zebrinha

Infanto-juvenil, aborda a riqueza da Cultura Africana.

Ó Paí, Ó!

Dias 16 e 17 - 21h

Dia 18 - 18h

12 anos. 1h30

Direção - Márcio Meirelles

Música e direção musical - Jarbas Bittencourt

Coreografia - Zebrinha

Espetáculo sobre moradores do Pelourinho, que rendeu filme e série televisiva.

Sesc Vila Mariana

Rua Pelotas, 141, tel. 5080-3000

608 lugares. R$ 16.

Informações sobre oficinas e encontros no site

www.sescsp.org.br

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