Festa de Barretos promete clima família

Quem tem picape não precisa de casa. O utilitário (aqui, na melhor tradução da palavra) faz as vezes de pista de dança, piscina, dormitório e até mesmo caça-mulher. Sim, essa é uma espécie de prova em que milhares de rapazes - cujo excesso de álcool parece transportá-los à era paleolítica - tentam laçar a fêmea que mais lhes agradam e arrastá-la para uns beijinhos na caçamba do veículo. Mas a tarefa é difícil, pois a cada ano as moças, já escaldadas com o assédio, se tornam um artigo cada vez mais raro na festa. Na última década, os eufóricos rapazes sem camisa, de jeans apertados, botinas e com chapéu de caubói e suas "travessuras" pareciam o símbolo da Festa de Peão de Barretos, que em 2002 completa sua 47.ª edição. Mas a organização do evento quer mudar o cenário. A partir deste ano, a diretoria de Os Independentes, grupo responsável pelo evento, quer transformá-lo em uma festa mais pacífica, para caubóis de todas as idades. Mesmo com a mudança de ares, a organização do evento espera atrair o mesmo número de público de edições passadas: mais de 1 milhão de pessoas, que deverão circular pelo parque do peão ao longo dos 10 dias de festival. Além de atrações sertanejas, esta "festa de família" vai oferecer baile para a terceira idade, números folclóricos, festival de balonismo e até mesmo um show do A-Ha, grupo norueguês que andava sumido desde os anos 80. Para atender o novo público, algumas modificações. Os portões, que tradicionalmente se abriam depois das 17h, vão permitir a entrada mais cedo, às 10h. O Rancho do Peãozinho, uma área de 30 mil metros quadrados dentro do Parque do Peão, será incrementado e trará oficinas de arte, minifazenda, animais, apresentações artísticas em três palcos, passeio de charrete e atividades como ordenha, manutenção de horta e fabricação de derivados de leite. Em relação aos shows, o A-Ha não é o único que marca o ecletismo desta nova "festa-família". Barretos também cederá espaço para os roqueiros do Capital Inicial, Titãs (que vão tocar no mesmo dia que os "axezeiros" do Chiclete com Banana) e até mesmo Gloria Gaynor, a rainha das pistas dos anos 70, que promete fazer peões sacudirem suas botinas ao som de I Will Survive. Mas é claro que as atrações sertanejas não ficarão de fora. Entre os gritinhos de Gaynor e Morten (o vocalista do A-Ha), o cantor Daniel, além das duplas Rio Negro & Solimões, Rick & Rener, Christian e Ralf e Thales & Thiago também terão espaço para seus agudos. Barretos 2002 vai ter espaço até para Rodrigo Leonel, o caubói que venceu o Big Brother Brasil 2. Rodrigo - figurinha fácil da festa mesmo antes da fama - vai usar a arena dos peões como plataforma de lançamento de seu CD, Cowboy Rodrigo no Batidão da Viola, pela Warner Music. Um dos confinados mais desafinados, ele fez um intensivo de canto e, em algumas faixas, vai se limitar a declamar poemas de rodeio e orações. O CD deverá ser lançado semana que vem em um dos ranchos do parque. Na próxima terça, o caubói deverá fazer uma participação especial no show de Fred & Pedrito, dupla que canta em uma das faixas do disco de Rodrigo. "Há mais de dez anos que o Rodrigo não perde uma festa de Barretos", revela Fernando Strambi, cunhado do rapaz. "Há dois anos, ele até chegou a participar de uma das provas de laçar cavalos e ficou em segundo lugar. Mas a festa sempre foi a praia dele, onde aproveita um dos seus melhores momentos no ano. Pena que desta vez ele não poderá circular pelas ruas do parque livremente", completa. Anônimo, Eduardo de Abreu, 24 anos, motorista, nem sabe quais serão as atrações da festa, mas já prepara as malas para Barretos. "Não importa quem vai cantar. Lá sempre é bom demais. Será o quinto ano consecutivo que vou à festa", avisa. Mas Eduardo faz questão de frisar que não pertence ao grupo dos "botinudos arruaceiros". "Lá, muitos homens bebem demais e acabam fazendo muita bagunça. Não faço parte da turma, mas acho divertido ver a bagunça", diz o rapaz. Segundo Eduardo, auto-intitulado "caubói de carteirinha", o melhor da festa de Barretos fica fora do parque. "A galera que for tem que se ligar nas festas fechadas", diz. Mas se o evento é restrito, como entrar? "Pagando, e muito bem", responde o garoto, entre risos. Ele explica que muitos fazendeiros da região aproveitam a época para promover também suas festas. A ingressos um pouco salgados: por volta de R$ 100 o pacote para três dias. "Mas vale a pena. Ali sim tem muita mulher", avisa. Sara Goulart Ribeiro, 26 anos, empresária, concorda. "São os únicos lugares em que a gente pode circular sem a preocupação de ser laçada", diz. "Quando a gente está acompanhada, tudo bem, o pessoal respeita. Às vezes", completa. "Barretos? Tem que ir com muita disposição", avisa Renato Chagas, 26, analista de mercado. O rapaz enumera alguns poréns da festa: "É tão lotado que a gente demora 10 minutos para andar 10 metros; os caras enchem as caçambas das picapes de água e ficam pulando para respingar no público; não dá para levar namorada e tem pouca mulher." Em seguida, completa: "Ainda bem que a organização se ligou e pretende mudar o esquema." Ao saber das mudanças da festa, Eduardo, o "caubói de carteirinha", também se animou. "Mas, de qualquer forma, vou deixar minha namorada em São Paulo."

Agencia Estado,

15 de agosto de 2002 | 10h39

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.