Festa da diversidade

Alto-astral do musical Priscilla, Rainha do Deserto chega a São Paulo

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

12 de março de 2012 | 03h08

Foi tudo muito rápido - em 1991, quando defendia seu filme Frauds no Festival de Cannes, o australiano Stephan Elliott foi consultado por um produtor se não teria à mão o projeto de um filme de baixo orçamento. Impressionado com a imagem do desespero de uma drag queen, cuja fantasia perdera as plumas durante o carnaval, Elliott, um prodígio que filma desde criança, teve uma ideia maluca: criar um roteiro a la Sergio Leone, mas ambientado na Austrália - e com transformistas. Depois de duas semanas de trabalho febril, ele terminava o roteiro de Priscilla, A Rainha do Deserto, filme que faturou prêmios (levou o Oscar de figurino) e fez grande sucesso. "Especialmente no Brasil", conta Elliott, que chega amanhã a São Paulo para a estreia de Priscilla, Rainha do Deserto - O Musical, sábado, no Teatro Bradesco.

Ele já se sente à vontade no Brasil: veio pela primeira vez em 1994, para o lançamento do filme no Rio. Lá, conheceu seu atual companheiro e, desde então, foram diversas viagens. "Inicialmente, fiquei preocupado com a reação dos brasileiros, pois temia encontrar aqui aquele espírito de machão latino", disse Elliott ao Estado. "Mas, foi o contrário: o Brasil foi um dos países que mais bem receberam Priscilla."

A expectativa é a mesma em relação ao musical, primeira produção da GEO Eventos - desde sua estreia, em 2006, em Sydney, o espetáculo já foi visto por mais de 2,5 milhões de pessoas. Com 27 integrantes no palco, conta a história de três drag queens que cruzam o deserto australiano dentro de um ônibus chamado justamente Priscilla. No caminho, Mitzi (Luciano Andrey), Felicia (Andre Torquato) e Bernadette (Ruben Gabira) brigam, reconciliam e se conhecem melhor até chegar ao seu destino, a cidade de Alice.

"É um grande trajeto em que elas enfrentam principalmente o preconceito", comenta Torquato que, aos 18 anos, consolida a posição de grande revelação dos musicais brasileiros. "Felicia, por exemplo, perde sua ingenuidade e descobre que o mundo não pode ser como ela quer."

Na verdade, a transformação é profunda para o trio. "Mitzi vive um dilema: a viagem serve para que ele veja o filho de 6 anos que há tanto tempo tem medo de conhecer", observa Andrey. "É um trabalho de atuação mais interior, envolvimento sentimentos."

Já Bernadette, a mais velha do grupo, parte para esquecer a morte de uma paixão e, no caminho, encontra outra, o mecânico Bob (Saulo Vasconcelos). "Ela não admite modernidades, como drags cantando ao invés de dublar", afirma Gabira, que se inspirou no gestual de atrizes como Bette Davis e Marlene Dietrich. "Bernadette é obsessiva, mas acaba se acalmando ao conhecer Bob."

Vasconcelos, um veterano em musicais (O Fantasma da Ópera, A Bela e a Fera, Mamma Mia!), acredita que seu personagem tem uma missão decisiva. "Bob existe para conduzir a parcela heterossexual na trama", acredita. "Como é extremamente tolerante - a ponto de iniciar uma relação com Bernadette -, ele mostra que não se deve julgar ninguém."

Tais descobertas são embaladas por uma trilha sonora da pesada, que inclui hits da música disco como It's Raining Men, Go West e Shake Your Groove, entre outras. E quase todas são cantadas em inglês, pois, como fazem parte dos shows das drags, não são necessárias para narrar a história, o que normalmente acontece nos musicais. Além disso, o espetáculo vai terminar com uma surpresa: uma canção brasileira, Dancin' Days, para animar ainda mais a festa.

Já o vestuário é um detalhe à parte - são mais de 500 figurinos e 200 perucas, com que o elenco desfila durante todo o musical. "É fascinante, apesar do enorme peso", confessa Andre Torquato. "Dançar montado assim é um grande desafio", diverte-se Luciano Andrey.

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