J. F. Fiorio/AE
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Festa da diversidade

Alto-astral do musical 'Priscilla, Rainha do Deserto' chega a São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

11 de março de 2012 | 20h30

Foi tudo muito rápido – em 1991, quando defendia seu filme Frauds no Festival de Cannes, o australiano Stephan Elliott foi consultado por um produtor se não teria à mão o projeto de um filme de baixo orçamento. Impressionado com a imagem do desespero de uma drag queen, cuja fantasia perdera as plumas durante o carnaval, Elliott, um prodígio que filma desde criança, teve uma ideia maluca: criar um roteiro a la Sergio Leone, mas ambientado na Austrália – e com transformistas. Depois de duas semanas de trabalho febril, ele terminava o roteiro de Priscilla, A Rainha do Deserto, filme que faturou prêmios (levou o Oscar de figurino) e fez grande sucesso. “Especialmente no Brasil”, conta Elliott, que chega amanhã a São Paulo para a estreia de Priscilla, Rainha do Deserto – O Musical, sábado, no Teatro Bradesco. 

Ele já se sente à vontade no Brasil: veio pela primeira vez em 1994, para o lançamento do filme no Rio. Lá, conheceu seu atual companheiro e, desde então, foram diversas viagens. “Inicialmente, fiquei preocupado com a reação dos brasileiros, pois temia encontrar aqui aquele espírito de machão latino”, disse Elliott ao Estado. “Mas, foi o contrário: o Brasil foi um dos países que mais bem receberam Priscilla.”

A expectativa é a mesma em relação ao musical, primeira produção da GEO Eventos – desde sua estreia, em 2006, em Sydney, o espetáculo já foi visto por mais de 2,5 milhões de pessoas. Com 27 integrantes no palco, conta a história de três drag queens que cruzam o deserto australiano dentro de um ônibus chamado justamente Priscilla. No caminho, Mitzi (Luciano Andrey), Felicia (Andre Torquato) e Bernadette (Ruben Gabira) brigam, reconciliam e se conhecem melhor até chegar ao seu destino, a cidade de Alice.

“É um grande trajeto em que elas enfrentam principalmente o preconceito”, comenta Torquato que, aos 18 anos, consolida a posição de grande revelação dos musicais brasileiros. “Felicia, por exemplo, perde sua ingenuidade e descobre que o mundo não pode ser como ela quer.”

Na verdade, a transformação é profunda para o trio. “Mitzi vive um dilema: a viagem serve para que ele veja o filho de 6 anos que há tanto tempo tem medo de conhecer”, observa Andrey. “É um trabalho de atuação mais interior, envolvimento sentimentos.”

Já Bernadette, a mais velha do grupo, parte para esquecer a morte de uma paixão e, no caminho, encontra outra, o mecânico Bob (Saulo Vasconcelos). “Ela não admite modernidades, como drags cantando ao invés de dublar”, afirma Gabira, que se inspirou no gestual de atrizes como Bette Davis e Marlene Dietrich. “Bernadette é obsessiva, mas acaba se acalmando ao conhecer Bob.”

Vasconcelos, um veterano em musicais (O Fantasma da Ópera, A Bela e a Fera, Mamma Mia!), acredita que seu personagem tem uma missão decisiva. “Bob existe para conduzir a parcela heterossexual na trama”, acredita. “Como é extremamente tolerante – a ponto de iniciar uma relação com Bernadette –, ele mostra que não se deve julgar ninguém.”

Tais descobertas são embaladas por uma trilha sonora da pesada, que inclui hits da música disco como It’s Raining Men, Go West e Shake Your Groove, entre outras. E quase todas são cantadas em inglês, pois, como fazem parte dos shows das drags, não são necessárias para narrar a história, o que normalmente acontece nos musicais. Além disso, o espetáculo vai terminar com uma surpresa: uma canção brasileira, Dancin’ Days, para animar ainda mais a festa.

Já o vestuário é um detalhe à parte – são mais de 500 figurinos e 200 perucas, com que o elenco desfila durante todo o musical. “É fascinante, apesar do enorme peso”, confessa Andre Torquato. “Dançar montado assim é um grande desafio”, diverte-se Luciano Andrey. 

Leia a seguir trechos da entrevista com o cineasta e roteirista Stephan Elliott:

Qual a conexão entre você, Priscilla e o Brasil?

Fiz o filme em 1993 e, no ano seguinte, fui ao Brasil. Eu temia a reação por conta da fama do macho latino, mas foi totalmente diferente. Desde então, Priscilla tem sido meu parceiro. Foi um momento feliz, não viverei algo parecido outra vez.

E como foi em outros países?

O curioso é que o filme não funcionou na Inglaterra - as pessoas pareciam desapontadas. Acho que público continuava no armário porque, quando o longa saiu em DVD, foi um sucesso estrondoso. Ou seja, preferiam se divertir em casa. Já Israel abraçou o filme. Mas não tenho nenhuma ideia do motivo.

Qual a razão desse sucesso?

Fiz o filme na época certa, quando o mundo se libertava da fase marcada pelas mortes provocadas pela aids. Ou seja, era preciso celebrar e Priscilla ajudou. Se tivesse feito o filme dois anos antes, não teria o mesmo sucesso.

Priscilla, Rainha do Deserto

Teatro Bradesco - 

Shopping Bourbon

(Rua Turiassu, 2.100, tel. 3670-4141.

Estreia sábado

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