Ferreira Gullar volta às colagens em novo livro

Poeta brinca com desenhos e gravuras em A Menina Cláudia e o Rinoceronte, que será lançado por ele amanhã

UBIRATAN BRASIL, O Estado de S.Paulo

05 de agosto de 2013 | 02h08

A MENINA CLÁUDIA E O RINOCERONTE

Autor: Ferreira Gullar

Editora: José Olympio

(48 págs., R$ 48)

Lançamento e bate papo com o autor: Livraria da Vila. Rua Fradique

Coutinho, 915. 3ª, 18h30.

A história já entrou para o anedotário particular do poeta Ferreira Gullar: certo dia, quando fazia um trabalho de colagem, ele deixou o trabalho para atender ao telefone. Ao voltar, descobriu seu gato de estimação, carinhosamente chamado Gatinho, ao lado das colagens todas misturadas. Mas, em vez de repreender o bichinho pela bagunça, Gullar não só gostou da nova disposição das figuras como passou a incluir o acaso nas colagens.

"Gosto de me reinventar, sempre", comenta ele, que garante não correr atrás de suas ideias: elas é que o procuram. O talento está em transformá-las em arte. Basta espiar seu mais recente livro, A Menina Cláudia e o Rinoceronte (José Olympio), que será lançado amanhã, com a presença do autor, na Livraria da Vila. Como no anterior Bicho do Lixo, a obra tem a descontração como marca e a criatividade como condutora na história da menina que, de tanto brincar com papéis coloridos que recortava, inventou um rinoceronte.

A trama foi inspirada em um relato de Cláudia Ahimsa, companheira de Gullar que, durante uma viagem pela África, descobriu-se, de repente, diante de um rinoceronte. Cara a cara. O fascínio misturou-se com o susto e a cena, assim como a forma singular do mamífero, mexeram com as ideias do poeta.

Como de hábito, Gullar utiliza recortes de objetos diversos para montar seus desenhos cuja originalidade na técnica já lhe rendeu um prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 2011, por Zoologia Bizarra (Casa da Palavra).

Ele sempre enfrentou esse tipo de criação como uma descompromissada brincadeira, algo distinto da seriedade com que enfrenta a poesia para adultos, atividade que foge de seu controle. "A poesia nasce do espanto, quando a vida me revela algo que eu desconhecia. Ali está a reflexão fundamental. O restante, eu faço com prazer e responsabilidade, reescrevendo quando necessário. Mas poesia é um departamento à parte", disse ele, certa vez, ao Estado.

Se ainda resta uma mínima dúvida para alguém, a José Olympio relança agora, com um novo projeto gráfico, sua obra mais recente, Em Alguma Parte Alguma, prêmio Jabuti de melhor poesia de 2011. A obra volta ao lado de Muitas Vozes e de sua obra-prima, Poema Sujo, todos acompanhados de novos textos de apresentação, assinados por Marco Lucchesi, Marcos Pasche e Antonio Carlos Secchin.

Em Alguma Parte Alguma, ele explora temas diversos, desde o cosmos até as artes plásticas, área que transita com tranquilidade, como criador e crítico; dedica versos, aliás, a amigos queridos como os artistas Iberê Camargo e Amílcar de Castro.

Já Poema Sujo está entre os grande poemas da literatura brasileira. Escrito em 1975, quando o poeta ainda vivia exilado em Buenos Aires, é um doloroso canto em favor da liberdade. Gullar viu-se convencido também a variar radicalmente no estilo e nas estruturas. "A construção revela sua semelhança com uma sinfonia: são vários movimentos e que refletem a forma como trabalhei com a inspiração.Tudo o que havia sido movimentado dentro de mim para fazer aquele poema, a matéria que ia dar forma, era volumosa, muito rica. Havia uma tonelada de matéria. Era minha vida inteira."

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