Ferreira Gullar participa de encontro em SP

O poeta Ferreira Gullar não pretende carregar nenhuma anotação para a palestra que vai dar amanhã à noite, no Centro Cultural Fiesp. "Não gosto de ler discursos diante do público, pois pode se tornar algoaborrecido; prefiro fazer uma apresentação inicial para sentirpara onde vai o interesse das pessoas e daí incentivar aconversa", justifica. O tema do encontro é livre e faz parte doprojeto InteligênciaPontoCom, mas o poeta sabe que algunsassuntos serão inevitáveis.Como a sua inscrição para o prêmio Nobel de literaturadeste ano. No fim de janeiro, o professor Antônio Carlos Secchin, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, embarcou paraEstocolmo, na Suécia, onde cumpriu as exigências do regulamentodo prêmio e inscreveu Gullar como candidato do Brasil. "Será asegunda vez em minha vida que participo de um concurso: aprimeira foi em 1950, quando ainda vivia em São Luís, e inscrevium poema (O Galo) na disputa de um prêmio do Jornal de Letras,do Rio de Janeiro", conta o poeta, que recebeu o PrêmioMulticultural Estadão em 2000. "Mas, desta vez, não me envolvino processo."Gullar conta que inicialmente foi contrário ao projetocapitaneado por Secchin, mas a adesão sucessiva de intelectuaisbrasileiros e estrangeiros e o argumento de que a premiação nãoseria apenas pessoal mas estendida à literatura brasileiraconvenceram-no. "As barreiras contra a língua portuguesa caíramcom a premiação a José Saramago; portanto, agora pode ser omomento de se reconhecer nossa história literária e valorizarnomes como João Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, CarlosDrummond de Andrade e muitos outros."Aos 71 anos e assíduo leitor de livros sobre astros eplanetas ("O espaço é tão imenso que o homem jamais poderáalcançar toda sua dimensão"), Gullar apenas acompanhou oprocesso de sua inscrição para o Nobel e se divertiu com ascoincidências que parecem conspirar a seu favor. Como adescoberta do interesse de uma escritora sueca pela sua poesia."Recebi uma mensagem eletrônica de uma mulher chamadaUlla Gabrielsson pedindo autorização para publicar Poema Sujoem sueco", conta Gullar, que não apenas concedeu a permissãocomo também solicitou que o trabalho de Ulla fosse incorporadoaos documentos entregues aos organizadores do Prêmio Nobel. "Énecessário que, além de livros no idioma original do candidato ede outras traduções, conste também uma edição em sueco",comenta. "Há mais de dez anos que a Ulla vem trabalhando natradução e só foi terminar em um momento como este."Poema Sujo é a obra mais conhecida e divulgada deFerreira Gullar, considerada por muitos como uma das principaisrealizações poéticas do século passado. Escrito em 1975, quandoo poeta ainda vivia exilado em Buenos Aires, o poema é umdoloroso canto em favor da liberdade. "Eu vivia um momentoparticularmente difícil da minha vida, com meus filhos doentes euma dor aguda pela separação forçada de meu país", que voltouao Brasil em 1977, época em que foi preso pelo "crime" de suasidéias contrárias à ditadura militar.Sem se filiar a nenhuma escola literária, a poesia deFerreira Gullar sempre avançou para todos os lados, testandoexperimentalismos e abandonando regras fixas. "Sempre busqueiresponder, na literatura, aos meus anseios", conta o poeta, quenão se incomoda em rejeitar momentos de sua obra. Como quandoadotou o estilo do cordel, em que buscava reproduzir a voz dasociedade. "Na edição portuguesa de minha obra completa,recentemente lançada, eu pedi que fossem retirados esses poemas,pois não os julgo importantes", conta.Ferreira Gullar no InteligênciaPontoCom. Centro Cultural Fiesp, Av. Paulista, 1.313, tel. 3284-3639, às 19 h. Grátis.

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