Ferreira Gullar adapta "D.Quixote"

A triste figura do cavaleirosolitário que luta contra os moinhos de vento ganha uma versãoinfanto-juvenil pelas mãos do poeta Ferreira Gullar. DomQuixote de La Mancha (Revan, 224 págs., R$ 29) chega emlinguagem moderna, compacta e acessível ao jovem leitor. Coube a Gullar adaptar e traduzir os cinco volumes dacoleção original em um único exemplar. O convite partiu daeditora, Gullar ficou meio ressabiado para aceitar o projeto."Não estava interessado, não sabia qual seria o resultado. Masdecidi reler o clássico. Fiquei fascinado como da primeira vezque o li. Considero um dos maiores livros, algo realmentefantástico", conta o poeta. A animação tomou conta de Gullar que durante seis mesesse debruçou sobre o texto original de Miguel de Cervantes parafazer a sua adaptação. "O livro guarda as características deuma época distante, com um vocabulário próprio, cheio dedescrições, com muitas notas, que o tornam complicado para ojovem leitor." A solução foi aproximar a linguagem da atualidade. Aobra original conta com uma série de histórias intercaladas queforam retiradas ou resumidas. Para Gullar, o livro surgiu comouma crítica às novelas de cavalaria, quase uma sátira,contraditoriamente as histórias românticas entraram para atingiresse público. "Cervantes criou um anti-herói, porém inseriu ashistórias para atrair leitores. Desde a primeira vez que liachei aquilo estranho, resolvi me deter na narrativa central. Osdiálogos longos e as considerações foram enxugadas." O poeta conheceu a obra de Cervantes aos 12 anos, pormeio de uma coleção infantil, editada pela Melhoramentos, masnão descarta a importância da leitura original. Ele polemiza comaqueles que são contra as adaptações. "Creio que, quando falamna leitura do original deve ser em espanhol arcaico, porque emportuguês o texto já foi transformado, é uma tradução. Eu nãoescrevo para museu, o fundamental está em não trair o escrito nolivro. Muitos não lerão o texto na íntegra, apenas essa versão,e não perderão o que há de fundamental na história." Ainda afirma que para atingir o público de hoje épreciso estabelecer uma identidade. "Creio que é importantemanter o espírito da obra ao mesmo tempo que a possibilidade decomunicação com o leitor."

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