Ferrara e as histórias violentas do submundo

Napoli, Napoli, Napoli mistura documentário e ficção num retrato aterrador da cidade italiana; o próprio cineasta vira personagem e busca esperança

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

09 de setembro de 2010 | 00h00

Drama radical. Alvo de elogios e também de críticas ácidas

 

 

Nos últimos anos, Abel Ferrara fez filmes como Subway Stories - Tales from the Underground e Go Go Tales. Napoli, Napoli, Napoli poderia ser Napoles Tales. Ferrara continua contando histórias - de submundo, preferencialmente. Quando ele surgiu, há 30 e tantos anos, os críticos imediatamente o situaram entre as promessas mais interessantes do cinema independente dos EUA. Ferrara pode até ter feito filmes distribuídos por majors, mas seus thrillers sempre saíram dos trilhos de Hollywood, mesmo que, em Cidade do Medo, China Girl - Um Amor Fatal, O Rei de Nova York e Vício Frenético (a primeira versão, a melhor, com Harvey Keitel), ele parecesse fazer a apologia da justiça por conta própria, um tema do qual brucutus como Chuck Norris e Charles Bronson foram - o primeiro continua sendo - adeptos fervorosos.

O próprio Ferrara sempre foi um personagem excessivo como seus filmes. Quem o entrevistou, sabe. Ferrara é do tipo que interrompe uma fala para ir ao quarto ao lado, do qual volta fungando e com o pensamento acelerado. Mas nem as drogas acabaram com ele. Aos 58 anos - nasceu em 1952 -, ele pode estar um bagaço, fisicamente, mas continua lúcido e provocativo. Napoli, Napoli, Napoli, mais do que um filme para se ver, é uma experiência que o espectador é solicitado a compartilhar. Não é para todos os gostos, mas é forte e até apaixonante.

Ferrara colheu elogios, mas também críticas ácidas por este drama radical. Muitos napolitanos não engoliram que um norte-americano do Bronx - mesmo que seu pai fosse italiano, de Nápoles - propusesse um retrato tão devastador da cidade. O modelo, para o público mais jovem, parece ser o Matteo Garrone de Gomorra, que pegou carona no livro cult de Roberto Saviano sobre a Camorra, que domina, a ferro e fogo, o submundo napolitano. O cinéfilo - não necessariamente o espectador mais velho, porque basta possuir uma cultura de cinemateca - talvez se lembre do Francesco Rosi de Le Mani Sulla Città. No começo dos anos 1960, depois de lançar os fundamentos de seu cinema documentado com O Bandido Giuliano, Rosi fez, no calor da hora, seu longa sobre a especulação imobiliária que estaria lançando as mãos, em conluio com a bandidagem (a Camorra), sobre a cidade de Nápoles.

Docudrama. Napoli, Napoli, Napoli parece um desdobramento de Le Mani. O filme adota o formato do documentário, mas é constantemente invadido pela ficção. O próprio Ferrara entrevista as presidiárias que dão seu testemunho na principal cadeia feminina da cidade. E, no final, é ele que aparece tocando num concerto de rock. Entre os depoimentos dessas mulheres de perfil algo aparentado - a maioria é formada de mães e irmãs mais velhas que fizeram o que tinham de fazer para sustentar as famílias -, ele conta duas histórias ficcionais, a de dois profissionais contratados para matar um sujeito e a de uma prostituta que cata seus clientes na rua. Como não se preocupa em esclarecer qual parte é o quê, o efeito muitas vezes é perturbador. Numa cena, a prostituta faz sexo oral com um cliente num carro. Em outra, é arrastada para um cortiço, onde um brutamontes a despe e faz sexo violento. A cena se situa nos limites do explícito. A mulher urra de dor, não de prazer. A dor é um elemento permanente no cinema de Ferrara, não apenas neste filme.

Vale lembrar que, em 1976, em princípio de carreira, Ferrara dirigiu um longa pornográfico, 9 Lives of a Wet Pussy, estrelado por sua namorada da época e ele contou, mais tarde, como foi horrível pagar US$ 200 a um cara para que fizesse sexo com ela. A partir daí, você pode até pensar que o diretor é sórdido. Não é o caso, mas Ferrara tem os pés encravados no horror que filma, e não é de hoje. De ascendência italiana e irlandesa, recebeu uma rígida educação católica. Seus filmes exalam culpa e pecado. Nápoles é um bom cenário para Ferrara, com seus santos e procissões. Além das presidiárias de Pozzuoli, o cineasta entrevista a prefeita de Nápoles e ela diz, com todas as letras, que uma cidade que não produz nada produz criminosos. É o pensamento que percorre Napoli, Napoli, Napoli. A cidade é bela, alguém diz, mas o que se vê é a sua miséria humana e social. Outro entrevistado reflete que ninguém é inocente. Você pode até não ter laços diretos com a criminalidade urbana, mas ao comer num restaurante, mesmo de luxo, ou comprar numa loja chique, você alimenta a Camorra com seu dinheiro, porque tudo está conectado. A estrutura social é corrompida. As mãos denunciadas há mais de 40 anos por Francesco Rosi realmente se apossaram da cidade. A diretora de uma entidade assistencial diz que o pior crime do Estado não é deixar as pessoas desempregadas. É assassinar os sonhos dos jovens, que não enxergam um futuro possível.

Degradação. Neste quadro, as presidiárias de Pozzuoli relatam suas experiências. Ferrara reserva o último testemunho de uma delas para o fim, antes que ele próprio faça seu concerto de rock. Essa mulher, do fundo da cadeia, conta como seus irmãos se encaminharam na vida e como ela, agora, pode pensar em si mesma - e em tentar ser feliz. Não são muitos filmes a nos fazer viajar na degradação e no desespero e a retirar, da dolorosa experiência de viver, uma possibilidade, mesmo que tênue, de superação. Quando o rosto daquela mulher é iluminado por seu sorriso, Ferrara não falsifica a realidade cruel para propor essa outra coisa, uma esperança.

Desequilíbrio. O filme não possui uma estrutura tradicional e muito menos convencional. É desequilibrado, mas isso faz parte da essência - do seu conceito, como se diz. Na internet, no YouTube, você encontra entrevistas em que Ferrara relata como trabalhou durante anos na Itália (Mary, com Juliette Binoche). Os produtores vinham do submundo e um deles havia estado preso. Napoli, Napoli, Napoli começou com esse comprometimento e, considerando-se o paradoxo de se passar em boa parte na cadeia, com essa liberdade. Ferrara cita outro paradoxo. A pobreza, nos limites da miséria, não impede a cidade de ser um dos lugares mais belos do mundo nem um daqueles em que melhor se come. Existem teorias explicando como as cinzas vulcânicas fertilizaram o solo e contribuíram para a pureza da água, que faz da pasta napolitana um prazer de degustação. Não admira que Ferrara termine seu filme com música. Você não viu nada aparecido nem na produção do próprio Ferrara. A extrema crueldade do autor não exclui a poesia nem a ternura, mas isso já sabem os admiradores de O Rei de Nova York e Vício Frenético.

QUEM É

ABEL FERRARA

CINEASTA

Nascido no Bronx, em Nova York, em 1952, tornou-se diretor aos 24 anos, com o pornográfico 9 Lives of a Wet Pussy. Nos anos 1980, iniciou a série de thrillers transgressivos que lhe deram fama; Cidade do Medo, O Rei de Nova York, Vício Frenético (a versão com Harvey Keitel).

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