Fernando Portela lança <i>Bonde - Saudoso Paulistano</i>

Um doce para quem já tenha ouvido algum usuário do antigo bonde se queixar daquele meio de transporte. Difícil, no mínimo. O jornalista e escritor Fernando Portela, autor do livro Bonde - Saudoso Paulistano (Editora Terceiro Nome), que será lançado nesta terça-feira no restaurante Buttina, dá sua versão dos fatos. "Acho que as pessoas entram num clima nostálgico, não só pelo bonde, mas pelos bons tempos a que ele remete. Todas elas têm memórias positivas."O próprio jornalista, hoje com 63 anos, se percebe arrebatado por esse sentimento. Tem memória de quando era criança, no Recife, e acompanhava os pais de bonde, para cima e para baixo. O mesmo transporte que fez uso mais tarde, quando se mudou para São Paulo. Recorda-se de como era boa a sensação de apreciar a cidade passando devagar diante dos olhos, sob uma perspectiva totalmente diferente.Nos dias de hoje, para ele, é preferível não imaginar o bonde como uma peça de transporte coletivo, "mas o início da nossa autoconsciência social, onde quer que se estivesse, naquele pobre Brasil da segunda metade do século 19", escreveu no início do livro. Suas andanças de bonde certamente lhe valeram a tese: "Sentados na engenhoca, iríamos, finalmente, conhecer nosso próprio mundo, vê-lo de cima, admirá-lo ou lamentá-lo. E assim, sem perceber direito a transcendência do fato, começávamos a virar cidadãos - exatamente naquele momento."Para reconstituir a histórica presença dos bondes que atravessavam a cidade de São Paulo, Portela valeu-se de vasto material fotográfico, grande parte vindo dos acervos da antiga Light, que são mantidos pela Fundação do Patrimônio Histórico de São Paulo. A galeria de cerca de 180 fotos que ilustra fartamente Bonde - Saudoso Paulistano foi complementada com material do arquivo da Agência Estado, inclusive as fotos da coleção São Paulo de Piratininga.A idéia toda partiu da Fundação, que se deu conta da quantidade de fotos bem conservadas de São Paulo. Portela foi então convidado a aderir o projeto. "Eu peguei as imagens e elas me serviram como pesquisa", diz o jornalista. "No livro, as fotos são mais importantes que o texto. Dão a dimensão de como foi aquele momento."As imagens são, de fato, um dos grandes trunfos da obra, mas é preciso dar crédito ao pesquisador. Isso porque, ao contrário da abundância de imagens, Portela não teve a mesma sorte com registros e documentos. A solução foi colocar sua habilidade de repórter-pesquisador em prática e ir atrás de tudo que envolvesse o assunto. Destrinchou mestrados e recorreu à memória de quem viveu a era do bonde paulistano. Como o bibliófilo José Mindlin que, claro, ficava lendo, e muito, dentro do bonde. "E já naquela época se dizia com muito humor que tudo é passageiro, menos o cobrador e o motorneiro."O texto reporta ao início de tudo: a partir 9 de outubro de 1868, uma estranha diligência chamada bonde circulava pelo Rio, então capital do Império, fascinando as pessoas. A primeira viagem fora feita pelo imperador d. Pedro II. Àquela altura, a pobre São Paulo nem imaginava estar tão perto do progresso. Fora a "décima primeira cidade do Brasil a usufruir da grande novidade". "Antes de nós, o Rio de Janeiro, Niterói, Porto Alegre, Santos, Cuiabá, Salvador, Recife, Belém, Fortaleza e São Luiz do Maranhão passeiam de bonde."Passa ainda pela evolução do transporte, desde os primórdios, quando o bonde era puxado por cavalos e burros, o que deixava a cidade malcheirosa. Sem falar que, nos dias de hoje, certamente aquela condição seria combatida pelas fervorosas associações de defesa dos animais. "Fiquei impressionado com o uso deles. As pessoas não deviam achar aquilo normal", diz. É um período que não deixa saudades, como deixou o bonde elétrico, colocado para circular no início do século 20. Ele abasteceu literatura, música e o imaginário de quem viveu aquela época, até ser aposentado, em 1968.Bonde - Saudoso Paulistano. De Fernando Portela. Editora Terceiro Nome. 224 págs. R$ 100. Restaurante Buttina. Rua João Moura, 976. Hoje, 19h30

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