Kika Antunes/Divulgação
Kika Antunes/Divulgação

Fernando Pessoa inspira peças teatrais

A capital paulista recebe 'Lisboa', um espetáculo de rua que utiliza diferentes cenários urbanos

Maria Eugênia Menezes - O Estad,

25 de junho de 2012 | 16h16

Parecia uma manhã como outra qualquer. Um homem desperta e prepara-se para o trabalho. Em meio a esse ritual cotidiano, descobre, porém, que tudo que era seu foi subitamente tomado por outra pessoa: suas roupas, seu emprego, sua casa, sua própria personalidade. Eis o mote de Abito, um dos três espetáculos que a Fondazione Pontedera de Teatro, do diretor Roberto Bacci, apresentou durante o Festival Internacional de Teatro Palco e Rua de Belo Horizonte (FIT-BH). Em sua 11.ª edição, o evento terminou ontem, depois de levar à capital mineira uma boa seleta de criações nacionais e estrangeiras.

Para conceber Abito, Roberto Bacci deu vazão a uma antiga admiração pela obra de Fernando Pessoa. “Sempre roubei imagens e textos de Pessoa para utilizar nas minhas criações”, diz o diretor. A atual montagem toma emprestados trechos do Livro do Desassossego, uma das poucas criações em prosa do poeta português. Lança mão da questão dos heterônimos como pretexto para discutir identidades. “Era um tentativa de refletir sobre a prisão em que vivemos. A eterna luta entre a liberdade e a máscara que construímos para nós. Quando alguém vem e rouba a sua identidade, também o liberta para ser outro, lhe dá a possibilidade de sair da vida ordinária”, argumenta Bacci.

Em Abito, que também foi vista em São Paulo na semana passada, os dez intérpretes sobem ao palco em bicicletas. Criam a imagem de uma cidade em constante movimento. Notório contraste com o homem sem identidade que fica paralisado. “Aqui, a liberdade é uma questão de oportunidade. Quantas vezes na vida temos a chance de mudar de estrada?”, questiona-se o encenador.

Assim como aconteceu em Belo Horizonte, hoje é São Paulo quem ganhará o aspecto da capital portuguesa, no fim do século 19. Lisboa é um espetáculo de rua que utiliza diferentes cenários urbanos. O guia que Fernando Pessoa escreveu sobre sua cidade natal é o ponto de partida para o trabalho. Assim como em Abito, os atores estão em movimento, munidos de suas bicicletas. A direção, neste caso, coube a Anna Stigsgaard.

Outra criação da Pontedera que foi vista em BH e logo chegará por aqui é umnenhumcemmil. O novo espetáculo de Cacá Carvalho tem estreia marcada para agosto, no Sesc Bom Retiro. A exemplo dos trabalhos recentes do ator, trata-se de mais uma incursão pelo universo do autor italiano Luigi Pirandello. A questão da crise de identidade, que a Cia. Pontedera exercita em Abito e Lisboa, também encontra eco no texto de Pirandello. Na peça, dirigida por Roberto Bacci, o personagem de Cacá Carvalho se dá conta de que não se conhece.

Ao selecionar espetáculos nacionais que já foram amplamente vistos em outras cidades, o festival de Minas Gerais garantiu sua dose de inventividade com os representantes estrangeiros da programação. Foi o caso das performances de Olivier de Sagazan, vistas pela primeira vez no Brasil. Reconhecido internacionalmente, esse artista congolês residente na França faz do próprio corpo o suporte para suas obras. Utiliza argila e tintas para transformar-se completamente.

Outra escolha feliz da curadoria foram duas criações do grupo colombiano La Maldita Vanidad. Parte da Trilogia sobre Alguns Assuntos de Família, as peças tratam de situações prosaicas. Mas mudam o ponto de vista do espectador. Em El Autor Intelectual, a plateia observa as ações que se passam por trás de uma janela. Como se estivesse diante da vida como ela, de fato, é.

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