Beto Lima/ Divulgação
Beto Lima/ Divulgação

Fernando Morais e Leandro Narloch batem boca na Fliporto

Escritores convidados para Feira Literária discordaram durante embate histórico e conversa sobre Cuba

Maria Fernanda Rodrigues - O Estado de S. Paulo,

14 de novembro de 2011 | 16h26

OLINDA - Nem as batatas cubanas ficaram de fora da mais animada e polêmica entre as mesas da 7ª Festa Literária Internacional de Pernambuco (Fliporto), que reuniu, na manhã desta segunda-feira, 14,  em Olinda, os jornalistas Fernando Morais, Leandro Narloch e Samarone Lima. O tema proposto era América Latina para o bem e para o mal e Cuba dominou boa parte da conversa, com defesas apaixonadas de Fernando Morais, que fumava charuto e usava um boné do MST, desiludidas de Samarone Lima, e inexistentes de Narloch. A segunda parte do debate ficou concentrada em criticar os dois livros de Narloch, o Guia Politicamente Incorreto do Brasil, hoje o quinto mais vendido no País em 2011 segundo a lista do Publishnews, site especializado em mercado editorial, com mais de 65 mil exemplares comercializados, e o Guia Politicamente Incorreto da América Latina (Leya).

 

Quem deu a largada foi o moderador Vandek Santiago. Ele questionou o jornalista sobre as fontes usadas na produção do livro, entre as quais estavam "as más línguas" em capítulo sobre o relacionamento de Perón, na Argentina, com jovens meninas.  

 

Morais se juntou ao debate quando Narloch disse que "vários" cubanos desertaram durante os Jogos Pan-Americanos do Rio, em 2007. "Foram dois", respondeu. Em outro momento, Narloch afirmou que as conquistas nas áreas econômica e de saúde não valeram a pena para Cuba, o que também irritou Morais. "Essa fala me lembrou Nelson Rodrigues, que era um grande dramaturgo e um péssimo político, e que disse que preferia a liberdade ao pão. Pergunte a uma mãe que está enterrando o filho de cinco anos por desnutrição o que ela pensa disso", disse Morais, que tinha acabado de citar dados da Unesco que mostram que Cuba tem o menor índice de mortalidade infantil entre os países concentrados do sul dos Estados Unidos à Patagônia.

 

Mais um pouco de conversa sobre liberdade e Cuba e a atenção voltou para Narloch. Fernando Morais, que não leu o livro mas acompanhou algumas entrevistas do autor, mencionou o caráter marqueteiro das obras. O autor chegou a comentar em uma dessas entrevistas que tinha começado a coleção, que terá um novo volume sobre a história do mundo, para ganhar algum dinheiro. "Estou em pânico. Passei a faculdade lendo Fernando Morais e agora estamos quebrando o pau".

 

"Leandro Narloch se reconhece como uma pessoa de direita. Em um país onde Paulo Maluf se diz de centro-esquerda, alguém de 30 e poucos anos se assumir de direita é de uma honestidade política", comentou. "Mas seus livros deveriam ter uma errata dizendo que eles se chamam Guias Politicamente Corretos porque estão remando a favor da maré e absolutamente a favor do vento que sopra na imprensa, especialmente na Revista Veja", completou.

 

Samarone Lima, que trazia um dos exemplares cheios "post-it", disse que encontrou uma série de problemas no livro, mas que o principal dizia respeito ao capítulo dedicado ao general Augusto Pinochet. "É de uma inconsistência dolorosa. Nós, jornalistas, trabalhamos com fontes. Você não pode escrever sobre Pinochet usando como fonte um livro lançado pelo governo golpista", disse Lima, que encontrou 12 referências ao tal livro oficial no capítulo.

 

Enquanto Lima procurava outra passagem, Narloch, já sem graça com a repercussão que seu trabalho tinha ganhado naquele painel, brincou: "Acabou, não dá mais tempo." Mas deu, e ele explicou que decidiu usar esta fonte juntamente com o coautor do volume sobre a América Latina, Eduardo Teixeira, porque as informações batiam com as informações reproduzidas pela esquerda. Ainda desconfortável, perdeu o fio da meada e foi vaiado quando, mais calmo, também citou Nelson Rodrigues: "Quem não é socialista com 20 anos não tem coração. Quem é com 40 não tem cérebro."

 

Foi então a vez dele contestar uma informação publicada por Morais sobre o episódio das larvas jogadas pela governo americano nas plantações de batatas em Cuba. "Use um pouco do dinheiro que você ganha com direitos autorais e vá até os Estados Unidos checar isso. Nós não vamos ficar aqui brigando pelas batatas cubanas", finalizou Morais.

 

A participação do público neste debate também foi bastante ativa, tanto que ao invés de perguntas o mediador recebeu comentários e broncas enviados pela plateia para os palestrantes. Uma dessas broncas foi para Fernando Morais e ele também ganhou sua cota de vaia - dessa vez não por ideias, mas pelo charuto que resolveu fumar na tenda da Fliporto.

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