Fernando Morais desvenda a alma dos "corações sujos"

O entrevistado é que pergunta: "Qual é a marca do seu computador?". Sony, responde o entrevistador e jornalista Fernando Morais. "A câmera é Nikkon, né?", continua o interlocutor. "É", aceita Morais. "Se o Japão tivesse mesmo perdido a guerra tanto quanto se fala, porque você estaria comprando equipamentos de lá?". O entrevistado é um senhor japonês que passou o ano de 1946 engajado numa luta intestina: limpar a colônia japonesa no Brasil dos pares classificados como derrotistas - ou seja, os que acreditavam na rendição do Japão na Segunda Guerra Mundial.Nessa outra guerra, em que valia tudo, inclusive falsificar declarações do imperador Hiroíto, ienes e edições de revistas norte-americanas, os tokkotai foram os agentes da faceta mais violenta da organização clandestina Shindo Renmei (Liga do Caminho dos Súditos): matar os derrotistas, também chamados de "corações sujos", expressão que deu nome ao novo livro de Fernando Morais. Em 13 meses, de janeiro de 1946 a fevereiro de 1947, 23 pessoas foram mortas em ações da Shindo Renmei - e 147 ficaram feridas, até que a polícia política da incipiente democracia desse conta de reprimir a organização.As atividades da Shindo Renmei se concentraram na região que fica entre Bauru e Presidente Prudente, no interior do Estado de São Paulo, numa gleba comprada por uma empresa colonizadora japonesa. Cidades como Tupã, Osvaldo Cruz e Bilac (ex-Nipolândia) formavam o principal cenário da história, que também se desenrolava na capital paulista.A polícia, com o final do Estado Novo, estava mais preocupada com as mobilizações de trabalhadores capitaneadas pelo Partido Comunista, recém legalizado, do que com intrigas entre os imigrantes que nem português falavam. E, quando resolveu investigar o assunto, não encontrou nenhuma facilidade: os japoneses, além de não aceitar o fim da guerra, não pareciam dispostos a colaborar com a repressão de um Estado que estaria ajudando os Estados Unidos a propagar uma versão supostamente falsa do resultado da Segunda Guerra Mundial. Só depois de algum tempo é que os policiais perceberam: a mais eficiente tortura, para descobrir se o sujeito participava ou não da Shindo, era obrigá-lo a pisar sobre a bandeira japonesa ou cuspir na figura do imperador Hiroíto. Quem não aceitava a ordem era incluído no rol dos suspeitos e terminava preso. No total, 31.380 imigrantes japoneses foram fichados pelo Dops (Departamento de Ordem Pública e Social) e 1.423 foram acusados pelo Ministério Público (dos quais a Justiça aceitou a denúncia contra 381). Os condenados acabaram por ser anistiados no final dos anos 50, durante o governo de JK.Corações Sujos deve chegar segunda-feira às livrarias. A conversa descrita acima fez parte da pesquisa para a produção do livro-reportagem. O autor de A Ilha, Olga e Chatô - O Rei do Brasil (e que já prepara uma biografia do senador baiano Antônio Carlos Magalhães) desta vez se debruçou sobre um episódio da história do Brasil que, se não está perdido (há vários trabalhos acadêmicos sobre o assunto, geralmente realizados por descendentes japoneses), foi deixado num bastante confortável segundo plano."Acho que foi um assunto deliberadamente esquecido pela colônia japonesa", afirma Morais. Na opinião do jornalista, os descendentes da imigração formam hoje um grupo moderno e totalmente integrado à sociedade brasileira. Essa história, um tanto quanto desagradável, acabou ficando para trás, os pais evitando transmiti-la aos filhos, que a conhecem - ou pelo menos dizem conhecê-la - no máximo muito parcialmente.Mas é difícil creditar o esquecimento apenas aos descendentes dos envolvidos no episódio - no que o autor concorda. Em 1946, a Assembléia Constituinte, motivada pelos episódios violentos relacionados à Shindo Renmei, discutiu um artigo que proibia a imigração japonesa. Luís Carlos Prestes (a favor) e Gilberto Freyre (contrário) se envolveram no debate, bem como o ex-ditador Getúlio Vargas. O texto foi rejeitado por apenas um voto, dado pelo presidente da assembléia. Se a história acabou por ser "escondida", foi por todo o País, não apenas pela comunidade japonesa.Namorada do Chatô - A Shindo Renmei tornou-se uma pauta de Morais quando ele pesquisava a vida de Assis Chateaubriand. Entrevistando uma ex-namorada de origem nipônica do empresário, soube que ela conheceu Chatô quando ele, usando sua influência, ajudou a soltar o pai, um integrante da Shindo Renmei. Morais perguntou o que era a Shindo, mas ela se esquivou, aumentando sua curiosidade.Realizar a reportagem sugerida pela namoradinha de Chatô não foi uma tarefa fácil. Primeiro, porque Morais era - e continua sendo - um desconhecedor absoluto do idioma japonês (foi um revisor da editora, por exemplo, quem percebeu que um rescrito falso do imperador, reproduzido no livro, estava de ponta-cabeça). Segundo, porque parte considerável dos entrevistados - os mais velhos, que viveram o período - não fala bem o português. Terceiro porque Morais era um gaijin, ou seja, um estrangeiro, metendo-se num assunto delicado."A Shindo Renmei faz parte da história do Brasil, não da história do Japão", justifica-se. Nos anos 50, a NHK, a maior rede de TV do Japão, realizou um documentário sobre o grupo. Morais tentou, mas não conseguiu obter uma cópia do filme. Desconfia que a rede não se esforçou muito para ajudá-lo, preferindo não mexer numa ferida já cicatrizada. Além disso, os arquivos da polícia não colaboram: em cada registro policial, os nomes dos personagens eram grafados de um jeito. Depois de definir como os padronizaria, Morais ia ampliando as fotos que tinha, colando-os na parede de seu escritório e escrevendo, em letras garrafais, os nomes dos personagens, para evitar mais confusões.O chefe - O ideológo da Shindo era um tenente-coronel do Exército imperial japonês que se transformou num modesto tintureiro no Brasil, chamado Junji Kikawa. Mesmo quando esteve preso, Kikawa comandou o que Morais chama de seita - e compara com o Hezbollah.Tão fundamentalista era o grupo que, mais de meio ano após a explosão das bombas nucleares sobre Hiroshima e Nagasaki, uma revista de estudos da seita ironizava uma "fracassada" experiência nuclear. "Os Estados Unidos realizaram no ano passado, na ilha Biquíni, uma experiência com bomba atômica (...), a qual nada mais fez que provocar o naufrágio de uns dois navios de pequena tonelagem." Ainda segundo o autor do texto, a experiência "só serviu para provocar uma boa gargalhada pelo mundo todo".Morais evita explicações sobre os motivos que levaram a essa espécie de alucinação coletiva, que convenceu quatro em cada cinco dos imigrantes japoneses. "A bibliografia que eu cito no final do livro pode dar conta desse interesse, mas meu livro é só uma reportagem, que é o que sei fazer", diz.Um desses textos, de Taeco Toma Carignato, busca na psicanálise o entendimento do episódio. Uma resposta sociológica também é tentadora, uma vez que entraram para a Shindo especialmente os colonos mais pobres e menos escolarizados. Como regra geral, os mais ricos acreditaram no fim da guerra - e foram perseguidos por isso. Do ponto de vista econômico, também havia os que se aproveitavam da situação, vendendo terrenos na grande Ásia que o Japão teria dominado e passagens de navio para os crédulos lá chegarem. Acrescente-se, ainda, a questão política. Na opinião do autor, o surgimento da Shindo e de outras organizações de colonos japoneses foi causado, em parte, pela repressão excessiva contra os imigrantes. Os japoneses foram proibidos de falar o japonês em público (embora não soubessem se expressar em português), de ler e publicar jornais e livros na língua, de possuir aparelhos de rádios - veículo fundamental para se interar do que ocorria na Europa e na Ásia - e, especialmente, de ensinar o idioma aos filhos. Mas, por outro lado, um certo descontrole por parte do governo também teria favorecido o surgimento da organização."As pessoas se perguntam por que nos EUA não houve nada semelhante", diz Morais. A resposta estaria, acredita, nos campos de internamento organizados pelos EUA logo após o bombardeio de Pearl Harbor, em 1941, que juntavam quase a totalidade dos japoneses vivendo no país. A concentração impediu o surgimento de grupos fundamentalistas. Morais não entra nessa questão, mas a decisão norte-americana permitiu também que um estudo prévio da sociedade japonesa antes da ocupação do país. A antropóloga Ruth Benedict, por exemplo, tornou-se autora de um clássico sobre a ética japonesa sem ter posto os pés no arquipélago. A partir de relatos e diários dos japoneses internados, escreveu um relatório para o Departamento de Estado depois publicado com o título O Crisântemo e a Espada (Perspectiva). Nele busca explicações, por exemplo, para a prática corrente do haraquiri, o suícidio, como forma para equilibrar as diversas éticas conflitantes que dão forma ao pensamento japonês.Essas diferentes éticas, organizadas de outro modo, permitem entender melhor o que ocorreu do que os definir, simplesmente, como loucos. "Não eram malucos", afirma Morais, "eram integrantes de uma cultura diferente, carente de informações, que não conseguiram entender como o Japão poderia perder uma guerra e como o imperador vinha pela primeira vez na história em público dizer que não era uma divindade", completa. "Também não eram criminosos comuns: a briga não era com o Brasil, mas com os japoneses que pareciam estar traindo a pátria."Corações Sujos - de Fernando Morais. Cia. das Letras (tel. 0--11/3846-0801), 350 págs. R$ 31,50

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