Fernando Henrique destaca o papel de vanguarda de Ruth Cardoso

'Ela não gostava da política partidária', afirma o ex-presidente da República

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 de novembro de 2011 | 06h00

A antropóloga Ruth Cardoso conheceu o marido no vestibular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade de São Paulo, onde se formou em 1952. Não demorou para que ela e o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso ficassem conhecidos como a "turma da biblioteca" (os dois não saíam da Mário de Andrade), dividindo o tempo entre leituras e sessões do recém-fundado TBC (Teatro Brasileiro de Comédia, criado em 1948). Foi lá que o jovem estudante, de jaquetão e colete, assistiu ao lado da namorada a uma peça de William Saroyan (The Time of Your Life, de 1939, aqui traduzida como Nick Bar... Álcool, Brinquedos e Ambições). O norte-americano Saroyan (1908-1981), hoje injustamente esquecido, ganhou o Pulitzer com a peça, mas não aceitou, alegando que o dinheiro do comércio jamais podia financiar a arte. Para estudantes fascinados pelo discurso marxista, como os jovens Ruth e Fernando, Saroyan era um autor e tanto, ainda mais que sua alegórica peça era repleta de gente fora do eixo - ou détraqué, como se dizia na época.

Pois foram justamente os marginalizados que logo atraíram a atenção da antropóloga em formação, ela que seria pioneira em pesquisas de campo, estudando a vida na periferia de São Paulo. O ex-presidente, em entrevista ao Sabático, corrige: "Para ela, não se tratava de marginalizados, mas de pessoas que queriam se integrar". Ele lembra que, antes de escrever a dissertação de mestrado em sociologia sobre o papel das associações juvenis na aculturação dos japoneses, em 1959, ela já estudava os hábitos de consumo de uma família de favelados do Jockey Club. "Ruth descobriu a razão de ser o açúcar o primeiro produto que compravam quando tinham algum dinheiro", conta. "É que, além de dar energia, podia ser dividido com outras famílias". Pode ter surgido ali, há meio século, o embrião da Comunidade Solidária.

"Nós conversamos muito sobre isso nos anos 1960 quando, no exílio, ficamos amigos de Foucault e discutíamos assuntos como a microfísica do poder, as formas de sociabilidade, a politização dos movimentos sociais". Ruth Cardoso, então, já era vanguarda. "Quando os antropólogos lidavam exclusivamente com os povos primitivos, ela já se dedicava à antropologia urbana, tendo um papel importante na disseminação do pensamento de Lévi-Strauss no Brasil".

No livro, analisando as "marcas" deixadas pelo trabalho do colega antropólogo, Ruth diz que "sua preocupação com as estruturas de significado e o sentimento oculto dos produtos culturais formam o núcleo de seu legado". No entanto, mostra-se pouco entusiasmada com os estruturalistas, revelando maior afinidade com a antropologia cultural do britânico Victor Turner (1920-1983) que, de certa forma, abriu para seus discípulos a possibilidade de politizar a antropologia com seu conceito particular de communitas - uma comunidade não estruturada em que todos são iguais - e interpretações nada ortodoxas do Maio de 1968 e dos hippies.

Ruth Cardoso sempre se interessou por esses movimentos espontâneos e pelos jovens, confirma o ex-presidente. "De política partidária ela não gostava, não tinha paciência para falar com deputados". Preferia conversar com mendigos, descer o Amazonas num barco pequeno para ver como viviam as populações ribeirinhas, segundo Fernando Henrique. O episódio da extinção da LBA (Legião Brasileira da Assistência), diz , revela como nenhum outro a aversão que a antropóloga tinha pelo assistencialismo, pelo clientelismo eleitoral, sendo ela defensora da autonomia dos movimentos sociais.

Assim como Teresa Caldeira, a organizadora da obra reunida da antropóloga, FHC afirma que foi esse seu maior legado, o de respeitar a autonomia dos grupos comunitários para decidir seu futuro e fugir da tutela estatal e de instituições - ainda que, num dos ensaios do livro, admita que essa autonomia jamais poderá ser total, relembrando o papel da Igreja ao longo dos anos da ditadura.

A vida acadêmica da antropóloga foi prejudicada pelo papel de primeira-dama e eclipsada pela imagem gigantesca do chefe da Nação? O ex-presidente admite que sim. Modesta, ela publicou pouco durante o período em que o marido dirigiu o País, pressionada pelos compromissos políticos dele aqui e no Exterior. "Mas ela foi uma grande professora, que tinha paixão por seus alunos, formando muita gente boa, como Teresa Caldeira, que hoje dá aulas em Berkeley".

Essa história vai ser contada no livro A Soma e o Resto, que o ex-presidente lança ainda em novembro pela Editora Civilização Brasileira. O título é o mesmo de um artigo publicado no Estado quando Fernando Henrique completou 80 anos, no dia 19 de junho. "Não gosto de memórias, mas este é uma longa entrevista (de dez horas) em que falo de minha mãe, do meu pai, das minhas relações pessoais, de família, drogas, enfim, dos meus sentimentos, uma visão retrospectiva de alguém que, aos 80 anos, se deu o direito de falar francamente". Além desses temas, outros sobre os quais raramente falou - espiritualidade, morte - estão presentes em A Soma e O Resto.

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