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Fernandinho Beatbox estreia em disco após 20 anos de estrada

Músico lança amanhã o trabalho 'Caminho Estreito', pela Label A, em show com artistas convidados

JOTABÊ MEDEIROS - O Estado de S.Paulo,

20 de junho de 2012 | 03h10

O homem que tem uma orquestra na boca estava havia 20 anos colocando sua batida perfeita nos discos dos amigos. Fernandinho Beatbox apareceu em quase todos os discos de Marcelo D2, por exemplo. Mas aí um dos seus pupilos resolveu encher a cabeça dele com a ideia de fazer seu próprio álbum, e eis que amanhã Beatbox lança Caminho Estreito (Label A) no Estúdio Emme.

Beat box é como é conhecido a habilidade vocal muito difundida nos primórdios da cultura hip-hop, que consiste na simulação, com a boca, dos sons das batidas de bateria e baixo e ruídos de "arranhão" (scratch) nos toca-discos.

Fernandinho Beatbox, de 36 anos, é um dos pioneiros na técnica, no Brasil. Os amigos dele, é claro, participaram do seu álbum e garantiram presença no seu show de amanhã: Z'Africa Brasil, Dexter, Renam Samam, D2 e Seu Jorge são aguardados para juntar-se ao homem-banda em Pinheiros.

O disco tem 15 faixas, a maioria composta por Beatbox e Samam, com uma pegada de hip-hop mais pop, sinuosa (tem até sample de Serge Gainsbourg, na faixa Tô com Você), boa de dançar e de ouvir. Tem ainda soul, funk, reggae (Nessa Babylon) e samba. Sobra suingue na levada de Fernandinho.

O universo de Beatbox faz ligações com as pontas de uma cultura popular ancestral. Por exemplo: o famoso radialista Zé Betio, ídolo da Rádio Record, "empresta" sua voz, sua base sertaneja e seu galo-despertador à faixa Bons Tempos, que conta ainda com sample de Everything Is Good, do Politicians. Já Desilusão tem um trecho de Água de Beber, na voz de Maysa.

As letras têm uma pegada de evangelização, devido à religiosidade de Beatbox, mas sem um ranço de doutrinação. "Hoje tá todo mundo querendo as coisas na facilidade, a molecada tá se destruindo nas drogas. Eu quis passar uma mensagem, mas à minha maneira. Sem essa de que Deus pune, quem se pune é mesmo a pessoa", diz Beatbox.

As participações especiais são muitas: Seu Jorge é uma das melhores, na faixa Minha Mademoseile, um samba funkeado com rap e beat box (que ainda usufrui as participações do MC e produtor do disco Renan Samam e da cantora Tita Lima). Tita ressurge no remix de sua própria composição, Vendendo Saúde e Fé (do álbum Possibilidades, de 2010). Já a faixa Ê, Moleque abre para as novas gerações: é uma composição de André Lemos e Billy SP, com participação do grupo Luance.

Daniel Ribeiro divide com Fernandinho os vocais de Bons Tempos, o rap-soul que traz à tona as boas lembranças da vida. A cantora Maysa foi homenageada com um sampler em Desilusão. A abertura do disco, a faixa FBB, é um mix de gravações que anunciam o artista em diversos programas de TV, rádio e shows ao vivo. Ao fim, quem dá a sentença final é o parceiro Marcelo D2, que provoca: "O que mais que vocês não entenderam? Fernandinho Beat Box!"

Fernandinho, que é da banda de D2 e sempre estava ali nos bastidores, fazendo shows com fulano e sicrano, não achava que pudesse algum dia reunir aquele star system para fazer a sua première em disco. Ele chegou timidamente até Seu Jorge, que conhece há muito, e perguntou: "Jorge, quais são as possibilidades de você participar de um disco meu?" Ao que Seu Jorge respondeu (ele imita, engrossando a voz): "Qualé, Fernandinho, tá maluco? Você é um ícone! Participar de um disco seu seria uma honra!"

Entrevista: cirurgia no dente mudou o seu timbre

O seu disco é bastante pop, não é sisudo como de praxe.

Tem reggae, tem samba, tem hip-hop, disco. Mas tem uma unidade. É um disco que fala de paz, de conquista, de autoestima. Optei não pelo desespero, sair atirando para todos os lados, mas por unidade.

Você teve um problema de saúde, diziam até que você teria de parar de fazer beat box.

Não, não tem nada disso. Na verdade, tive um problema com os dentes. Eu fui atropelado quando tinha 16 anos, fiquei com os dentes meio moles. Aí puseram dois pinos e infeccionou, tive de arrancar. O som do chimbau (prato de bateria) que eu faço na boca é um som que sai entre os dentes, e agora os três de trás estão emendados num só. Isso afeta o timbre, o que me levou a uma nova maneira de fazer o som. A gente se adapta. Tô estudando agora como fazer o trompete, os metais, na boca também.

Como você começou a fazer o beat box?

Isso começou lá em 1990, 1991. Eu vi um filme quando era pequeno, não lembro o nome do filme. Tinha uns caras batendo na lata e fazendo sons com a boca. Eu passei a fazer esse som na escola, em Campo Limpo, onde vivo até hoje. Faziam uma rodinha para me ver fazer o beat box. Uma vez apanhei porque não aguentava mais fazer, e a turma não queria que eu parasse. Me deram umas pancadas, saiu sangue da orelha.

Você conhece alguém tão bom quanto você no Brasil?

Hoje tem uma molecada muito boa. Há um campeonato, um grupo chamado Beatbox Brasil, fantástico. Eles me dizem: 'Você sabe fazer!", e dizem o nome em inglês da coisa. Na minha época não tinha isso. Os caras me têm como um espelho, e eu me preocupo com o que digo pra eles.

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