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Fernanda Montenegro revive Zulmira

Em 'A Dama do Estácio', atriz recria a personagem que interpretou em filme de 1965

ROBERTA PENNAFORT - O Estado de S.Paulo,

28 de setembro de 2012 | 03h11

RIO - Sessenta anos de carreira, todas as mais altas glórias alcançadas, há quem não consiga mais dissociar Fernanda Montenegro da imagem de diva-mor da dramaturgia brasileira, senhora respeitável, "grande dama".

Para o diretor de cinema estreante Eduardo Ades, no entanto, não houve constrangimento na hora de convidar a atriz de 82 anos para fazer uma prostituta decadente, que anda decotada, fala palavrão e faz ponto na rua.

Entregue o roteiro, em 2010 - quando ele tinha apenas 28 anos -, Fernanda não demorou a aceitar o papel. Só pediu o tempo necessário para gravar a novela da TV Globo Passione.

Foi também o período que o diretor, com experiência apenas em curtas, produção e curadoria de mostras de cinema e em publicidade, precisava para captar os R$ 80 mil necessários à filmagem (ainda pôs R$ 20 mil seus).

A protagonista de A Dama do Estácio, o curta de Ades, que passou pelo Festival de Cinema de Huesca, na Espanha, em junho, e a mostra de curtas de São Paulo, em agosto, e será exibido hoje no Festival de Cinema do Rio, não é uma personagem qualquer. É uma homenagem à primeira incursão cinematográfica dela: A Falecida, de Leon Hirszman.

No filme de 1965, Fernanda é a Zulmira de Nelson Rodrigues, uma mulher obcecada com a própria morte, que ambiciona um enterro de luxo que a redima da vida miserável de subúrbio. Tuberculosa, acaba morrendo.

Ela agora volta a Zulmira, desta vez uma prostituta que chora porque não tem dinheiro para comprar o caixão em que gostaria de ser enterrada. Cortejada por um antigo amor, dono de uma funerária, ela diz que só se casará com ele caso o caixão escolhido, pomposo, lhe seja dado de presente. Quer tê-lo por perto, dentro de casa. Ele resiste a ceder à excentricidade, mas sucumbe, e Zulmira se casa de noiva e tudo.

Os 22 minutos do filme acabam com a velha prostituta na caçamba de uma kombi pelas ruas do Estácio, bairro tradicional e decadente da área central do Rio. Véu na cabeça, celebra com o amigo travesti, o caixão ao lado, ao som de O X do Problema.

Os versos narrativos do samba de Noel Rosa dos anos 30, na versão original de Aracy de Almeida, foram a semente do roteiro: "Já fui convidada para ser estrela do nosso cinema/ Ser estrela é bem fácil/ Sair do Estácio é que é o X do problema".

"O refrão me remetia à Falecida, fiz uma homenagem ao filme. Refizemos a cena da chuva, uma das mais conhecidas do cinema nacional e das mais famosas da carreira da Fernanda (Zulmira vai tirar roupas do varal e se rende à chuva, expondo-se). As cenas na funerária também remetem ao filme do Hirszman", diz Ades, que contou com o total desprendimento da atriz.

Ela dedicou cinco dias às gravações, entre o fim de Passione e viagens com o monólogo Viver Sem Tempos Mortos, e contribuiu com ideias cênicas. Deu palpites no figurino e no roteiro - "nesta vida eu aprendi um pouquinho de dramaturgia", brincou. "Foi uma parceria enorme, Fernanda estava inteira. No último dia, a equipe estava apaixonada", lembra Ades. "É claro que intimida, mas ela está ali tão naturalmente que desarma isso."

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