Fernanda Montenegro, na tela, na televisão e no teatro

Atriz está no filme 'O Amor nos Tempos do Cólera', minissérie de Maria Adelaide e peça sobre Simone e Sartre

Entrevista com

Luiz Carlos Merten,

12 de dezembro de 2007 | 20h54

Acaso, coincidência, destino? Fernanda Montenegro prefere acreditar que se trata de um dos pequenos milagres da vida. Quando leu o romance O Amor nos Tempos do Cólera, de Gabriel García Márquez, ela se comoveu com a intensidade da história de amor, mas nunca pensou que um dia estaria na Colômbia, participando do esforço internacional para levar à tela essa trama tão arrebatadora. Veja também: Trailer de 'O Amor nos Tempos do Cólera' Da mesma forma, quando jovem, após a 2.ª Guerra, Fernanda lia Simone de Beauvoir e vibrava com a pensadora que esculpia uma nova consciência para a mulher do século 20. Agora, com Sérgio Brito, Fernanda prepara um espetáculo sobre Simone e, claro, Jean-Paul Sartre, já que as vidas de ambos, como ela diz, "são indesligáveis". Cinema, teatro. E a TV? Fernanda Montenegro grava nas próximas semanas sua participação na nova minissérie de Maria Adelaide Amaral - Meus Queridos Amigos. Será uma história da geração que foi revolucionária nos anos 60 e que avalia o que restou de seus sonhos (e amores). Fernanda faz a mãe de uma combatente da ditadura militar. A filha é interpretada por Denise Fraga. "A minissérie reúne os maiores talentos da geração que está hoje nos 30/40 anos", diz Fernanda, feliz de estar de volta à televisão num trabalho que vai ao ar em fevereiro, e que ela antecipa que poderá ser muito bom. "Maria Adelaide (Amaral) é uma autora rara. Na televisão e no cinema brasileiros, as pessoas falam muito. Somos verborrágicos, muitas vezes para dizer pouca coisa. Maria Adelaide controla as palavras, escreve o diálogo exato." Simone e Sartre A TV em fevereiro, o teatro no segundo semestre de 2008, pois é importante que seja no ano que vem, quando se comemora o centenário de nascimento de Simone de Beauvoir. Como Sartre, ela foi uma das personalidades políticas mais influentes do século 20. Se depender de Fernanda e Brito, a data não passará em branco. A peça será redigida por Geraldo Carneiro. Fernanda e Brito pesquisam, lêem livros. Fazem leituras dramáticas privadas, em voz alta, a dois. A assessora de Fernanda, Carmem, conta que foi um privilégio assistir à leitura de A Cerimônia do Adeus, o adeus de Simone a Sartre e à sua geração. "Nós estamos vivendo uma era de adeuses", diz Fernanda. "Só no teatro, perdemos (Gianfrancesco) Guarnieri, Paulo Autran, Raul Cortez. E não são só essas perdas. O mundo mudou, ficou muito diferente dos sonhos da minha geração. Nós queríamos mudar o mundo. Mas não lamento. Estamos vivos, e só isso já é uma grande vitória, um grande milagre." O fim de ano é sempre uma fase de muita correria. "Não sei se para vocês, homens, é assim, mas para nós, as mulheres, é." Grandes e pequenos personagens, Fernanda abraça todos, roubando tempo à família, ao marido, aos netos. O que a move? "É a adrenalina. E também o fazer - o gosto pelo fazer." Sua presença em São Paulo, nesta segunda-feira, deveu-se ao trabalho. Fernanda veio dar algumas entrevistas sobre O Amor nos Tempos do Cólera, que estréia no dia 28. Ela ainda não sabia das reações da crítica norte-americana ao filme que o inglês Mike Newell adaptou de García Márquez. O crítico do L.A. Weeekly, jornal de distribuição gratuita em Los Angeles que tem, talvez, a crítica mais interessante - até porque alternativa - dos EUA, bateu pesado. Disse que Newell fez a pior adaptação de qualquer livro, de qualquer vencedor do Prêmio Nobel, em qualquer época.  García Márquez  Uma avaliação arrasadora, da qual Fernanda não participa. "O livro do García Márquez narra uma história de amor como aquelas que o cinema não apresenta mais." Ela sempre teve dúvidas se o público conseguiria entrar no clima dessa história que atravessa o tempo. Um homem ama uma mulher que conhece na juventude. Perde-a para outro, ou para os preconceitos da sociedade de sua época, que não aceita o casamento de uma herdeira, mesmo de uma família decadente, com um poeta sem eira nem beira. Passam-se décadas antes que o herói, velhinho, consiga realizar seu desejo." "É um sentimento visceral, mas que, infelizmente, ficou antigo", define Fernanda, que identifica em O Amor nos Tempos do Cólera a mesma intensidade de obras como Esposamante, de Marco Vicario, ou O Inocente, de Luchino Visconti. Não por acaso, são dois diretores italianos - latinos, portanto. Compartilham com García Márquez a verdadeira pororoca de sentimentos que carrega como um turbilhão os personagens do escritor. "O filme é uma grande produção de Hollywood, um filme caro, mas admiro o esforço e a dedicação do Newell, que rodou na Colômbia, com uma equipe predominantemente latina." Fernanda não poupa elogios a Javier Bardem, que faz seu filho. "Sou uma grande admiradora do trabalho dele. Acho que Javier não é só um fenômeno como ator, mas também é um homem cuja presença física atua de forma muito forte no imaginário erótico das mulheres. Ele parece um daqueles touros do Picasso." Newell é um diretor eclético, que fez filmes muito diferentes entre si (de Harry Potter e a Ordem do Fênix a O Sorriso de Mona Lisa, de Dançando no Escuro a Quatro Casamentos e Um Funeral e Donnie Brasco). "Mas ele é um homem de cultura, um grande diretor de atores e, se você for olhar, tem um recorte de temas que percorre seu cinema. São filmes que falam de amor, de morte, de tempo." Tudo isso se encontra em O Amor nos Tempos do Cólera e, se for possível reprovar alguma coisa em Newell, será sua prudência. O repórter cita a melhor cena - Javier Bardem, cujo personagem, no filme, é considerado homossexual, mas na verdade é um garanhão que substitui uma mulher levando todas as outras para a cama. Ele está na cama com essa amante ocasional que chupa, olhem o detalhe, não o dedo, mas uma chupeta de bebê. Fernanda é sábia - "Se o filme tivesse mais disso seria alternativo, não mainstream."

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