JB Neto/AE
JB Neto/AE

Fernanda Gomes prepara sua obra para a 30ª Bienal de São Paulo

Trabalhos são arranjos de construções formais - escultóricas - feitas com objetos do cotidiano

CAMILA MOLINA - O Estado de S.Paulo,

26 Julho 2012 | 03h10

Possibilidades de luz - natural, diretamente solar e artificial - ganharão relevo na obra que a carioca Fernanda Gomes, de 51 anos, prepara para a 30.ª Bienal de São Paulo, a ser inaugurada em setembro. Luz é princípio de pintura e para a artista o gênero pictórico é, nas artes, "a linguagem que mais tem autonomia", por conter o que seria "quase imaterial".

Mas é preciso dizer que Fernanda Gomes não pinta como seria a maneira tradicional relacionada ao gênero. Aliás, suas obras são arranjos de construções formais - escultóricas - feitas com o uso de objetos corriqueiros do cotidiano, desde fios de linho, sacos de plástico, fragmentos de coisas banais, mobiliários, por exemplo, em um espaço delimitado por ela com base na arquitetura do local expositivo. À primeira vista, seus trabalhos podem até parecer anódinos, demora-se um tempo para adentrar os territórios criados pela artista. Fernanda rejeita o termo instalação para definir suas obras. "Sou mais suscetível à ideia de ambiente", afirma. "As artes visuais têm uma linguagem muito autônoma, livre da linguagem verbal", ela completa.

Na 30.ª Bienal, que tem como título A Iminência das Poéticas, o jogo visual que ela criará em sua sala no pavilhão da mostra tende mais uma vez a ser sutil e rigoroso, intimista, conclamando a abertura para a experiência da percepção, da sensação e da imaginação, da criação de narrativa - a "ideia de uma experiência mais livre possível".

Somente agora, quando operários já erguem as paredes de madeirite da museografia da 30.ª Bienal de São Paulo, Fernanda Gomes se interessou em ir ao pavilhão para delimitar o espaço que seria o ambiente de sua obra. Mais ainda, até coletar alguns restos dos painéis usados na própria construção da expografia. No segundo andar do edifício, ela mostra à reportagem duas possibilidades de esculturas, feitas pela junção de dois pedaços de madeira. Parecem peças primitivas, mas a geometria que as sustenta remete à herança construtiva da arte brasileira. "A tradição me interessa, é estar num lugar", diz.

Participar de uma Bienal de São Paulo pode ser, para alguns artistas, a oportunidade de se arriscar e no caso de Fernanda Gomes, a novidade em sua obra, como ela conta, vai ser a criação de espaços intermediários, dentro da arquitetura expositiva, para explorar as possibilidades de luz. A primeira sala, por assim dizer, será um ambiente "mais formal", do escultórico mais direto. O que seria a segunda sala vai ser dedicada ao que poderíamos dizer o espaço da pintura, imersiva, abrigada sob um tecido branco - Fernanda já fez isso em 1998, em um trabalho apresentado no Japão.

O ambiente poderá ser completado com outras construções de raiz pictórica branca - cor que soma luz -, criadas com telas e outros materiais. "Sempre vi a pintura como objeto", afirma Fernanda. A artista ainda vai aproveitar os corredores instalando neles esculturas, uma delas, cinética.

Uma certa pureza relacionada às suas obras tem a ver com a possibilidade do imperfeito, da dispersão, da junção de "rigor e emoção". Por isso, Fernanda Gomes somente consegue criar seus ambientes com base em situações já existentes no local. É um trabalho que acontece in loco e assim a artista, que vive no Rio, retornará ao pavilhão da Bienal em 18 de agosto para construir sua instalação. Ficará imersa no prédio até quase a abertura oficial da 30.ª edição do evento, em 4 de setembro.

"A Bienal de São Paulo é o grande momento da arte no Brasil, é sempre muito emocionante", diz Fernanda, que participou da 22.ª edição da mostra, em 1994.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.