Paulo Giandalia/AE
Paulo Giandalia/AE

Fernanda e sua arte eterna

Incansável aos 80 'e tantos', ela foi ao Sul atuar em um filme e em um especial de TV

LUIZ CARLOS MERTEN , PORTO ALEGRE, O Estado de S.Paulo

14 Outubro 2012 | 03h09

Fernanda Montenegro está de volta ao Rio Grande do Sul. Há poucos meses ela esteve na região de Bagé, integrando o elenco da adaptação que Jayme Monjardim fez do épico O Tempo e o Vento, de Érico Veríssimo. Fernanda interpreta a velha Bibiana, matriarca da família Terra-Cambará, que recebe e visita do espírito do eternamente jovem Capitão Rodrigo. "A personagem é inalcançável, um mito", ela define. Fernanda esteve até quinta-feira em Porto Alegre fazendo Dona Picucha, protagonista do especial de Natal - um telefilme - que a Casa de Cinema, por meio dos diretores Jorge Furtado e Ana Luiza Azevedo, realiza para a Globo.

Ainda sem título - Dona Picucha é provisório -, o telefilme conta a história de uma idosa que anuncia para os filhos que a doméstica que a acompanha está indo embora. E agora - quem fica com mamãe? A trama lembra Parente É Serpente, de Mario Monicelli, mas toma outros rumos (e outro desfecho). Fernanda conversa com o repórter do Estado. Sobre Bibiana, Picucha, Guerra dos Sexos, Avenida Brasil, o País. Com a palavra, a grande da representação.

Como a personagem Dona Picucha surgiu em sua vida?

Como um presente. Conheço o pessoal da Casa de Cinema de Porto Alegre, mas não imaginava que, de repente, eles fossem me propor um trabalho, e um trabalho tão especial quanto esse. Havia feito Bibiana Terra, uma personagem mítica, inalcançável. É um figura universal, mas aqui no Rio Grande do Sul seu significado é maior. Ela integra os mitos formadores da identidade gaúcha. Cada um tem a sua Bibiana, o seu Capitão Rodrigo no imaginário. Não é fácil entrar nesse território dos mitos. Espero que Jayme (Monjardim) tenha acertado o tom. Em contrapartida, Picucha parece mais fácil. É uma senhorinha como muitas outras. Mas é uma guerreira que ninguém derruba e ninguém esmorece. Tive imenso prazer em fazer a personagem.

Você agora acaba de fazer uma cena decisiva. Qual foi?

É aquela em que Picucha anuncia que a doméstica está indo embora e ela vai ficar sozinha. Isso provoca uma revolução na família. Nenhum filho quer ficar com a mãe, mas a família reunida terá de enfrentar o problema.

Não quero ser invasivo, mas após a morte de seu marido, Fernando Torres, seu filho Cláudio disse que "mamãe" havia descoberto um prazer especial no contato com a terra, comprando um sítio. Foi coisa de momento?

Não, é algo mais profundo. Poderia ter sido só para enfrentar uma perda dolorosa. Mas sou filha de imigrantes. Portugueses de um lado, italianos de outro. Meus antecessores vieram para o Brasil atraídos pela ideia de um paraíso e encontraram a dura vida. Eram camponeses, nunca desistiram. Na minha infância, no Rio, vivia numa casa com horta, não digo pomar, mas tínhamos árvores frutíferas. O contato direto com a terra ajudou a fazer quem eu sou. Foi uma retomada, digamos.

E como você virou atriz?

Mas meu filho (Fernanda abre os braços), você acha que eu sei? É a grande pergunta da minha vida. Talvez tenha sido meu pai. Ele trabalhava com madeira. Era artesão, mas fazia um trabalho tão caprichado que virava arte. Meu pai entendia a madeira, falava com ela, tinha respeito por ela. Não era um artista, mas talvez tenha sido a relação dele com a madeira que me abriu os olhos e o coração para o que há de criativo na atividade humana.

Você fala com muito carinho de seu pai. É assim que se lembra dele?

A vida é assim. Quando jovem, você quer contestar, se libertar. Mas quando amadurece ou envelhece, adquire outra percepção. O que fica é o reconhecimento, o afeto.

Você está aqui em Porto Alegre e neste momento a TV retoma um de seus sucessos, a novela Guerra dos Sexos. Como encara isso?

Não é um retake, como é que se diz? Remake? Na nova versão da novela, Sílvio (de Abreu) não retoma os mesmos personagens, mas seus descendentes. Tem gente que acha que Paulo Autran e eu trabalhamos muitas vezes juntos. Foi a única, mas a gente combinou tanto que alimentou essa ideia de uma longa parceria. Paulo era um grande comediante. E o mais importante - éramos felizes naquela época, e sabíamos. Não poso falar da nova versão porque ainda não tive tempo de ver. A gente filma aqui até tarde. Só espero que Irene (Ravache) e Tony (Ramos) se divirtam tanto quanto a gente.

Então você também não vê Avenida Brasil?

Ah, não. Às 9 da noite já estou no hotel. Vejo, sim.

E...?

Como a maioria da população, estou ligada na novela. João Emmanuel (Carneiro) está fazendo uma revolução na dramaturgia para TV. Escrever novela é coisa muito dura e difícil. São 200 capítulos. Ele eliminou o nhenhenhém. Propôs uma experiência dramatúrgica. Só momentos fortes, o que não interessa foi pro lixo. Isso tem possibilitado aos atores um trabalho extraordinário.

Walmor Chagas, quando o entrevistei (pelo filme Cara ou Coroa), disse a mesma coisa.

Porque ele sabe. Walmor também fez muita novela e sabe como é difícil essa dramaturgia. Já conhecia o Zé Emmanuel (ele coescreveu 'Central do Brasil', de Walter Salles), mas lá era cinema e ele trabalhava em dupla (com Marcos Bernstein). Acho que até ele se surpreendeu, mas a verdade é que ninguém escreve para TV assim. No passado já tivemos Dias Gomes, por exemplo. Hoje, o João Emmanuel está fazendo história.

E o Brasil, está melhor?

Na verdade, há dois Brasis. Um, que continua com problemas de educação e saúde, e outro, que nunca esteve melhor. Mas continuo acreditando que o País só será grande quando tiver educação e saúde para todos. É um sonho do qual não abro mão.

E a cultura?

Sem educação não há cultura, e vice-versa. Apresentei Viver sem Tempos Mortos nos CEUs de São Paulo, sempre para plateias lotadas. Há curiosidade do público. Os jovens têm sede de informação, de saber. Essa história de que jovem é alienado não tem nada a ver. Qualquer jovem sabe hoje mais que seus pais, e avós.

E você, alguma coisa que ainda quer fazer na carreira?

Ih, meu filho, se ainda não fiz, aos 80 e tantos não vou fazer mais. O importante é que consigo viabilizar projetos, gosto do que faço e ainda me convidam para coisas como a Picucha. Não me canso de fazer Viver sem Tempos Mortos porque me identifico com a personagem, Simone de Beauvoir. Ela encarnava a modernidade da mulher quando eu era jovem. O mundo mudou e a Simone continua sendo um farol. E ela me ilumina.

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.