Feridas do passado e do presente

Espetáculo mexicano Amarillo abre mão de discursos dogmáticos para rever complexo tema da migração para os EUA

MARIA EUGÊNIA DE MENEZES, O Estado de S.Paulo

01 de junho de 2013 | 02h09

Amarillo é uma cidade do Texas, nos Estados Unidos. É também assim que os mexicanos denominam a cor da areia do deserto que precisam atravessar para chegar até o suposto Eldorado americano. Uma mesma palavra para condensar sonho e impossibilidades, aridez e desejo. Justamente como Amarillo o grupo mexicano Línea de Sombra batizou o espetáculo que o Sesc Pompeia recebe hoje e amanhã.

A criação trata do repisado tema da migração em massa de latinos rumo ao norte. Mas se diferencia pela maneira de fazê-lo. Paradoxalmente, falar muito sobre algo pode ser justamente uma forma de esquecimento. De achatar tanto um assunto até retirar-lhe qualquer complexidade. "Todos falam da violência evidente, imediata. Mas ninguém da violência invisível, aquela que gera o lucro que se obtém com esse negócio de morte em que se converteu a imigração", diz o diretor Jorge Vargas. Na peça, um mexicano tenta ilegalmente cruzar a fronteira e se encontra em algum lugar no meio do caminho. Já partiu. Mas ainda não chegou. Em outro plano, uma mulher lamenta a ausência do homem que foi embora e tenta reconstruir-se a partir do vazio deixado. "Toda a trama situa-se em um limbo", define o encenador, líder da companhia fundada em 1993 na Cidade do México e reconhecida como uma das mais importantes do continente.

Em setembro, eles estiveram no Brasil. Participaram do Mirada, Festival de Artes Cênicas que o Sesc promove em Santos, e se destacaram com o mais belo espetáculo da seleção. Pode, aliás, soar estranho que se fale em beleza diante de obra tão contundente politicamente. Mas Amarillo assombra, em grande medida, justamente pela capacidade de unir essas pontas. Uma amarração tal, que apaga qualquer uma dessas anacrônicas dicotomias entre senso estético e engajamento político. "A realidade sempre nos pareceu mais importante", comenta Vargas. "Trabalhamos a partir de coisas materiais: objetos, documentos. E só depois procuramos um sentido estético. Não buscamos uma poética de antemão. Encontramos a poética no contexto. Não queríamos fazer demagogia com isso."

A princípio, o palco está nu. Os atores se encarregam de cobri-lo com galões de água, criando algum tipo de mosaico, e com sacos de areia, que pendem do alto. Tudo o que é utilizado em cena são coisas sem valor. Há imagens de uma série de sete documentários sobre imigrantes ilegais, projetadas sem qualquer tratamento. Além de rastros de videoarte - fundindo os atores a imagens pré-gravadas, música executada ao vivo e dança. Uma proposta de encenação que se situa em algum tipo de limite, entre o teatro e a instalação, entre o que é arte e o que não é mais. Para dar conta da realidade, recusa os caminhos da representação. E joga com a lógica não linear do delírio. "Muitas vezes, quando são encontrados no meio do deserto, esses imigrantes já estão desidratados, perderam o senso de orientação e estão dando voltas em círculo em torno de um mesmo lugar. Para nós, isso parece um delírio. E é a partir desse aspecto delirante que podemos reconstruir um itinerário poético, um imaginário sobre o que possa significar um migrante", conta Vargas.

A abordagem da desventura feminina é igualmente desprovida de linearidade. Elas são o pedaço que não partiu. Estão diante de figuras ausentes, de homens que desapareceram, morreram em meio à travessia ou se esqueceram delas na chegada. "Se você vê cabeças rolando na televisão todos os dias, como pode a ficção competir com isso? Quando a violência já foi espetacularizada, teatralizada, o teatro precisa fazer o caminho inverso."

Uma reinvenção da dramaturgia política está em curso. E esse é um processo que não respeita fronteiras. Pode ser constatado hoje na Argentina, no Peru, na Colômbia, no Brasil. Em São Paulo, os coletivos com ambição política passaram a abordar, quase invariavelmente, a cidade e seus fulcros. Rareiam os espaços para discursos dogmáticos. Abrem-se possibilidades de abordar questões de interesse coletivo de outra maneira, sem deixar de ressignificar e contextualizar as feridas - do passado e do presente - de cada país.

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