Fenômenos editoriais começam a marcar o Brasil

O livro O Código da Vinci, publicado pela editora Sextante, acaba de completar um ano de lançamento com uma performance inacreditável: vendeu 750 mil exemplares. Há três semanas, o editor Paulo Rocco, da editora que leva seu sobrenome, preparou uma estréia espetacular para O Zahir, o último livro de Paulo Coelho, com uma primeira edição com 320 mil cópias, uma das maiores de que se tem notícia no Brasil. Na ocasião, Coelho acabou estampando as capas das três principais revistas semanais do País, um fenômeno inédito para um lançamento de livro. Em um mercado como o brasileiro, onde a tiragem média de um novo título é de 3 mil exemplares, os feitos da Sextante e da Rocco são raridade. O faturamento de mais da metade das editoras brasileiras não chega a R$ 1 milhão por ano e apenas 5% ultrapassam os R$ 50 milhões. O brasileiro lê pouco e o governo é o grande comprador de livros do País. Em 2003, último ano a ser contabilizado pela Câmara Brasileira do Livro, o governo comprou 43% do total de exemplares vendidos. Apesar desse retrato pouco alentador, a indústria do livro está otimista. Um levantamento do Ministério da Cultura aponta que as editoras pretendem investir R$ 239 milhões em 2005, um valor 48% maior do que o registrado no ano passado. Boa parte desse otimismo é resultado da desoneração fiscal dos livros promovida pelo governo federal em dezembro. Com isso, as editoras deixaram de recolher impostos que variam entre 3,65% e 9,25%. "Isso significa uma injeção de cerca de R$ 15 milhões por mês", explica Galeno Amorim, coordenador do Plano Nacional do Livro e Leitura do Ministério da Cultura. Marcos Pereira, da Sextante, começou o ano investindo pesado em lançamentos que seguem a esteira do sucesso de O Código da Vinci, uma história de mistério que mistura personagens como Jesus Cristo, Maria Madalena e Leonardo da Vinci. A editora comprou os direitos de quatro livros do escritor Dan Brown, autor do best seller. Anjos e Demônios, um deles, já vendeu 240 mil exemplares. O outro, Fortaleza Digital, lançado há duas semanas, já esgotou a primeira edição de 80 mil exemplares e está em fase de reimpressão. "Erramos nas contas", brinca Marcos, que é neto do editor José Olympio, fundador da editora do mesmo nome. Na semana passada, O Código da Vinci ganhou uma edição ilustrada, que sairá por R$ 59, R$ 25 a mais que o livro original. A tiragem é de 60 mil exemplares. A Editora Rocco também prevê mais fartura para 2005. Além de Paulo Coelho, contará com trunfos como o novo Harry Potter, que terá uma tiragem tão opulenta quanto à de O Zahir e doses colossais de marketing. "Pensa-se que só os best sellers contam com estrutura de marketing. Na verdade, todos os livros têm um planejamento de marketing por trás", explica Rocco. "Aquele romantismo dos velhos tempos, onde se imprimia um livro, mandava para as lojas e pronto, não tem mais espaço no mercado editorial de hoje." O mercado brasileiro, mesmo com todos seus contrastes e problemas, tem despertado a cobiça de editoras estrangeiras. A espanhola Planeta chegou em 2003. Ainda é pequena, mas planeja estar entre as primeiras do ranking entre 2008 e 2009. Agressividade é que não falta aos espanhóis. Fisgou da concorrência os escritores Fernando Morais, Zuenir Ventura e Paulo Lins. Em maio lança uma trilogia escrita pelo ídolo pop Bob Dylan. "O Brasil é um mercado com dificuldades, onde as editoras dão descontos enormes aos livreiros, as tiragens são reduzidas, mas às vezes acontecem surpresas que superam tudo isso", diz César Gonzalez de Kehrig, diretor da Planeta no Brasil. As "surpresas" são livros com edições que quebram a barreira dos 100 mil exemplares - como As vidas de Chico Xavier, primeiro título da Planeta a alcançar esse status. "Isso é um fenômeno raro, mesmo em países de grande tradição em livros como Uruguai, Chile e Venezuela. Esses mercados encolhem na comparação com o Brasil", diz. Por essas e outras, a Planeta tem planos ambiciosos. Até agora investiu US$ 7 milhões no País mas não descarta aumentar muitas vezes esse valor com a compra de concorrentes, como já fez na Espanha e em vários países.

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