Fenômeno Harry Potter rende-se ao marketing

Acaba no Brasil a magia de Harry Potter. Com a chegada às livrarias do segundo número da série, Harry Potter e a Câmara Secreta, o fenômeno dos livros juvenis rende-se de forma incondicional à "mágica" do marketing. Agora, o negócio é vender. E o que há de melhor em Harry Potter, que é o fato de ser, ao mesmo tempo, um fenômeno literário e psicossocial, que se construiu no boca-a-boca dos intervalos escolares, perde espaço para macaquices, com lojas como Siciliano e Saraiva espalhando sósias do menino (incrível, se pensarmos que não se trata de um personagem de HQ) por suas filiais. Ainda nos números, o segundo volume chega ao Brasil com uma tiragem inicial de 100 mil exemplares. Do primeiro, já foram impressos 75 mil. É pouco, se pensarmos que o quarto volume da série, Harry Potter e o Cálice de Fogo, teve uma tiragem inicial de 5,6 milhões em inglês, somando EUA e Reino Unido.Mas há um certo catastrofismo na primeira linha deste texto. Até porque o primeiro Harry Potter já chegou ao Brasil embalado pelo marketing do exterior. E uma boa prova de que o herói ainda é maior que a publicidade que o cerca foi o encontro promovido pela reportagem na segunda-feira, com duas crianças - Talita M. Amâncio e Heitor Dib Carneiro, ambos de 11 anos -, um palhaço - Alexandre Roit, do grupo Parlapatões -, e duas mulheres adultas - a psicanalista Miriam Chnaiderman e a escritora de livros infanto-juvenis Tatiana Belinky.A conversa, que durou quase uma hora e meia, mostrou o quanto a série deve seu sucesso à qualidade da trama - que gira em torno do aprendizado de magia de Harry Potter e permite aos leitores que se identifiquem com os problemas enfrentados pelos personagens.Tanto Talita quanto Heitor são filhos de jornalistas. Não foram os pais, no entanto, que levaram o livro para casa. Talita leu Harry Potter e a Pedra Filosofal, que deu origem à série, seguindo a recomendação de uma amiga. Heitor, de uma prima. O segundo Harry Potter foi-lhes entregue pela reportagem três dias antes do debate. Ainda não haviam lido tudo mas conversar sobre o personagem é fenômeno corriqueiro para os dois. Talita, por exemplo, é capaz de citar resenhas e comentários publicados nos jornais, que foram debatidos numa aula de português. Também escreveu um texto, que levará à sala de aula, para discuti-lo com a turma. Assim, nem ela nem Heitor se impressionam diante das críticas de Tatiana à tradução.A escritora - e também tradutora - reclama principalmente da escolha da palavra "trouxa". Para ela, a gíria brasileira não se enquadra no sentido que a autora de Harry Potter, a já quase bilionária britânica J.K. Rowling, deu ao termo "muggles", e que indica os não-mágicos, as pessoas comuns. "Não me conformo com os trouxas", diz a escritora. Quando Heitor é questionado sobre o que pensa dos tios de Harry Potter, primeiros vilões da história, que o trancafiam em casa, ele responde: "Esses podem ser chamados de trouxas mesmo." Alexandre concorda: "Eles são aquele tipo de gente que, em vez de tentar conhecer, tem medo daquilo que não conhece."Talita compara os dois livros da série. "O segundo demora um pouco mais para chegar na trama; até o 9.º, 10.º capítulo, ainda está contando como está indo na escola, os amigos; depois é que começa de verdade." Nesse ponto, o mistério que rondará todo o número ganha força: quem está transformando em pedra os alunos de Hogwarts, escola de magia de Potter.Mas por que Talita gosta tanto de Harry Potter? Ela responde: "Porque é uma mistura, não fica nem muito fantasioso nem muito real." Aí, Alexandre volta à conversa. "É que o fantasioso que está lá parece de verdade; mesmo com aquela fantasia toda, ele tem problemas", argumenta. Miriam realça a aproximação da história com uma velha estrutura. "O livro pega o imaginário do contemporâneo e conta na forma de conto de fadas: tem sentimentos alegres e tristes e a gente precisa falar deles ou eles explodem de outra forma."Tatiana aponta as referências anglo-saxônicas, as histórias da Távola Redonda. "Rowling tem uma imaginação delirante; pegou tudo, usou e aproveitou, misturou toda aquela fantasia antiga com fantasias infantis de agora."Na sua opinião, o livro é bem-feito, mas não excelente. Acredita, portanto, que cumpre os requisitos básicos de uma boa obra, conforme lhe definiu certa vez sua neta ("Se não dá para rir, não dá para chorar, não dá para ter medo, não dá para ter raiva, então não tem graça"). Mas aponta falhas: "Ele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado é completamente vilão, mau e ponto; um crítico fala, acho que com razão, que é muito mais interessante um vilão que tem um lado encantador, fica mais terrível - e mais assustador."Lobato - Tanto Talita quanto Heitor admitem não gostar muito de Monteiro Lobato. Para a menina, o escritor não consegue fazê-la prestar atenção. Heitor leu dele "só uns pedaços".Miriam acredita que o fato de Lobato não ser tão interessante para as crianças de hoje indica uma mudança histórica, que precisa ser considerada. Talita corrobora essa opinião, comparando o livro com o diário da menina judia Anne Frank, escrito durante a ocupação nazista na Holanda, na 2.ª Guerra Mundial (1939-1945). Para ela, o diário parece ser menos real que Harry Potter, uma obra de ficção.Outra comparação, essa inevitável, foi com o personagem Nino, do Castelo Rá-Tim-Bum. Para Talita, as duas histórias guardam semelhanças. "Ocorrem coisas que acontecem com qualquer criança." Miriam concorda: "Tem toda a coisa da interação com o mundo, né?" Aí, Talita aponta as diferenças: "Ele não conhece nada dos trouxas, o Harry Potter tem problemas na hora de conhecer os mágicos, na escola, e os tios são a escola do Nino." Tanto Nino quanto Harry estão separados dos pais, são órfãos. Os tios cumprem, assim, seus papéis, mas com sinais invertidos: os de Nino são bonzinhos, como se representassem os pais provedores, não apenas no sentido material; já os tios de Harry são maus, encarnam especialmente o que há de mais duro na figura paterna, que é a repressão, os limites impostos à diversão e ao prazer.Como bem observa Miriam, nas duas histórias há livros que falam. "Acho o Harry Potter um livro que fala, para nós todos, essa é uma imagem muito rica." E como fala. Alexandre expõe um problema. "Dá uma raiva quando ele volta para a casa dos tios, onde tem de passar o verão e não pode usar nada...". Heitor explica que isso ocorre porque são três meses, não dava para ficar na casa de alguém ou na escola. Miriam, então, aponta fragilidades em Harry, e imediatamente, Talita lembra que ele é proibido de fazer mágica quando não está na escola. "Pô, ele só tem problema, não tem nada que facilite", reclama Alexandre. Não tem nada que facilite, mas tem sorte. Por sorte, diz Talita, descobre seu talento no quadribol, o esporte mais popular entre os bruxos. "Ele é o jogador mais novo do campeonato", emenda Heitor.Tatiana está preocupada com o que as crianças imaginariam ser. "Nessa idade, eu queria ser bruxa." Nem Talita nem Heitor respondem, mas a conversa anda com uma questão prática, também de Tatiana: "O que você faria se ganhasse na Sena?" Talita responde que gastaria tudo num shopping. Heitor corrige: "Não dá: você ia comprar o shopping e ainda ia sobrar dinheiro." Dinheiro é um problema mesmo. A menina continua: "Às vezes, quando estou com dinheiro, gasto sempre mais do que queria; às vezes, quero gastar R$ 10, mas gasto R$ 20."É, não é fácil não poder fazer uma coisa que se quer muito. "Nessas horas, não seria legal ter uma varinha mágica, que fizesse tudo o que você quer?", pergunta Miriam. Talita diz que depende, "porque seria meio fácil demais". E exemplifica: "Às vezes, a gente está no meio da aula de matemática e já queria saber tudo, só que aí não teria esforço, a gente não ia conseguir pensar direito, a gente só ia saber." Heitor completa: "Ia saber por saber, não ia aprender a saber."Miriam admite: "Eles são mais ajuizados que nós." A psicanalista argumenta que Harry Potter supriu uma necessidade. "Dá a impressão de que as crianças estavam esperando por algo; o que pasma é que, de fato, a mídia não estava dando conta de alguma coisa, e, com esse fenômeno, se volta ao livro, se volta a uma escrita."Harry Potter, Pokémon (também um grande fenômeno cultural infantil). Realmente, eles parecem mais ajuizados que a gente. Que o marketing dos adultos não mate o Harry Potter das crianças.

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