Fenômeno construído

Por trás de O Artista, vencedor do Oscar, está Harvey Weinstein, hábil criador de sucessos

UBIRATAN BRASIL, ENVIADO ESPECIAL, LOS ANGELES, O Estado de S.Paulo

28 de fevereiro de 2012 | 03h07

Uma moeda dada pela filha se transformou no grande amuleto de Thomas Langmann, produtor do grande vencedor do Oscar, O Artista, vencedor de cinco estatuetas, entre elas a de filme, diretor e ator. "Eu a emprestei ao Jean Dujardin momentos antes de ele ser anunciado vencedor entre os atores e, depois, guardei no meu bolso, esperando a minha vez", disse ele. "Fizemos um tributo ao cinema, especialmente o americano, mas não esperávamos tanto carinho em retorno."

Na verdade, o grande amuleto de O Artista é um senhor ligeiramente calvo, que já foi mais gordo e que aplicou um beijo na face de Langman antes de subir os degraus da fama até o almejado Oscar. Trata-se do produtor Harvey Weinstein que, além do feito de conseguir prêmios importantes para um longa mudo e em preto e branco, faturou ainda com a premiação de melhor atriz para Meryl Streep (A Dama de Ferro) e com a escolha de Undefeated como melhor documentário de longa-metragem, premiações surpreendentes, pois outros eram favoritos.

"Harvey foi um dos principais incentivadores do filme, acreditando que poderíamos estar aqui", disse Langmann. "Mesmo sem nos conhecer, ele foi à França um mês antes do Festival de Cannes, assistiu ao longa, riu muito e resolveu apostar suas fichas."

Weinstein, de fato, é um jogador nato, especialmente quando aposta em filmes com perfil de azarão. No ano passado, ele também saiu vencedor com os prêmios ao seu O Discurso do Rei e, em 2003, foi o principal articulador para que Cidade de Deus - que fora ignorado no ano anterior pela Academia na categoria de filme estrangeiro - desse o primeiro passo para se tornar um sucesso mundial ao ser indicado em quatro categorias para o Oscar, inclusive a de filme.

Harvey e seu irmão Bob precisavam de um grande êxito. Com dívidas crescentes, eles foram obrigados a vender o acervo da companhia de 250 filmes ao Goldman Sachs, um dos maiores bancos de investimento do mundo por US$ 50 milhões, algo como queimar os móveis para manter o ambiente aquecido. Também receberam um crédito de US$ 75 milhões de outros investidores, a Ziff Brothers. Na semana passada, os Weinsteins saldaram a dívida ao pagar com um crédito de US$ 150 milhões, ainda que boatos no mercado sussurrem que eles já fizeram novo empréstimo, agora de US$ 200 milhões.

O céu também clareou para a equipe de O Artista com a premiação de domingo. O diretor Michel Hazanavicius, por exemplo, anunciou que pretende refilmar The Search, longa dirigido por Fred Zinnemann em 1948 e estrelado por Montgomery Clift. No Brasil, chamou-se Perdidos na Tormenta. "É um melodrama com fundo político, mas acredito que ainda é atual", afirmou.

Já o ator Jean Dujardin parecia ainda estar no ambiente do filme, pois pouco falava e só jogava charme para as mulheres - na verdade, escondia com seu largo sorriso a dificuldade de falar inglês. Ele reconheceu ter dito um palavrão durante o discurso de agradecimento. "Estava muito empolgado e não percebi", justificou ele, confessando ter realizado uma interpretação emotiva e não racional em O Artista. "Assisti a vários filmes, especialmente de Douglas Fairbanks e Gene Kelly como inspiração." Dujardin garantiu ainda que pretende seguir carreira no cinema americano. "Nem que seja em outro filme mudo."

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