Felizes para sempre

Reserve um bom tempo para ler Liberdade (Freedom), que na próxima semana chega às livrarias. Como o romance anterior de Jonathan Franzen, As Correções, também traduzido pela Companhia das Letras, é um calhamaço de dimensões tolstoianas (608 páginas, cerca de duas dezenas de personagens), mas que flui como um folhetim.

Sergio Augusto, O Estado de S.Paulo

21 de maio de 2011 | 00h00

É outra história alegórica em torno de uma família do Meio-Oeste americano, cobrindo, desta vez, um período de 30 anos, com maior concentração na era Bush, e um percurso que começa em St. Paul (Minnesota) e termina em Manhattan, passando por Washington. E termina bem, como um filme da velha Hollywood, com direito a uma ceia natalina de reconciliação familiar à altura daquele jantar de Ação de Graças de Hannah e Suas Irmãs, na santa paz da tranquilidade doméstica, como Natasha & Pedro terminaram em Guerra e Paz e Kitty & Levin em Ana Karenina.

O mais bem-sucedido autor de sua geração (51 anos, quatro romances, dois livros de ensaios, um prêmio nacional de ficção, fenômeno de vendas e críticas entusiásticas), Franzen nada tem contra o happy ending. Nem contra uma história narrada de forma sóbria e contida, como um romance do século 19, inspirado sobretudo por Tolstoi (há cinco menções a Guerra e Paz, quatro delas no espaço de 20 páginas). Só ainda funciona se o autor consegue nos interessar vivamente pelos personagens e seus destinos, quando, enfim, nos submetemos com prazer à empatia da narrativa e daqueles que lhe dão substância.

"Em vez de um épico, Franzen criou uma soap opera (novela de TV)", queixou-se Ruth Franklin, no semanário The New Republic. A crítica é procedente, embora eu não veja qualquer incompatibilidade entre os dois "gêneros".

Franzen já se confessou adepto de dois modelos diferentes de ficção: o que dá status (escrita ambiciosa, a busca pela "mot juste" flaubertiana, a obra-prima como meta) e o que chama de "contratual" (contrato com o leitor, oferecendo-lhe uma prosa acessível e sedutora). Levou nove anos escrevendo Liberdade (dois a mais do que lhe tomou As Correções), motivado pelo anseio de interromper o declínio do romance de comentário social na América, outrora representado por obras com a garra de As Vinhas da Ira e Ardil 22, que algum ou bastante impacto provocaram na cultura do país. São cada vez mais raras as exceções (Don DeLillo, por exemplo), escassez que Franzen atribui à complacência forçada pelo "totalitarismo cultural" da TV e da geração de filisteus que ela lobotomizou.

A questão ambiental, a guerra no Iraque, a crise financeira de 2008, a estreiteza ideológica dos republicanos, a intolerância religiosa dos evangélicos, o poder do dinheiro, a campanha de Obama para a Presidência são alguns dos tópicos que permeiam a saga dos Berglunds, a família, de raízes suecas, que em Liberdade assume o protagonismo que em As Correções foi dos Lamberts. Seu patriarca, Walter Berglund, é um quixotesco advogado ambientalista, "mais verde que o Greenpeace", afinal convertido num intransigente protetor de pássaros ameaçados de extinção. Algo mais além da ornitofilia ele tem em comum com o autor - o pendor à reclusão, a preocupação com os estragos da fragmentação patrocinada pela internet -, mas sua excessiva amabilidade (sua qualidade mais saliente é ser "nice") o reduz às dimensões de um teimoso Cândido pós-hippie, a certa altura chifrado pela mulher, Patty, uma abelha-rainha com toques de Mildred Pierce (menos Veda) e uma pitoresca fixação na palavra "weird" (estranho, esquisito).

O vértice do triângulo amoroso é um roqueiro musicalmente íntegro, Richard Katz, um "tombeur de femmes" que adora o rival, lê Thomas Pynchon e parece ter sido em parte inspirado no escritor David Foster Wallace, fraternal amigo de Franzen que (eis a pista) também tinha o hábito de mascar fumo. Katz é um personagem cativante ao extremo, mas não chega a ofuscar Walter e muito menos Patty, a quem Franzen entrega o comando do relato a partir do segundo capítulo, expondo o leitor a uma autobiografia estranhamente narrada na terceira pessoa. Ao longo de umas 160 páginas, Patty reconta o que nas 30 primeiras foi relatado pela ótica dos vizinhos dos Berglunds em Ramsey Hills (St. Paul), num diapasão fofoqueiro que me lembrou John Updike e Grace Metalious, e outros segredos mais.

Onde se encaixa a liberdade, essa palavra-fetiche dos americanos? Ela assombra os personagens, aflora, aqui e ali, na boca de pais e filhos, aparece em letras de músicas e em placas de colégio ("Use bem a sua liberdade"), revela-se necessária, fundamental - e insuficiente. Franzen a concebe como uma bênção e uma maldição. Quando beneficiado pela liberdade financeira que o sucesso de sua música lhe traz, Katz não consegue compor.

O que na prática significa ser livre? Para os pássaros é uma coisa, para os gatos outra, ambas igualmente afetadas pela liberdade com que a indústria energética contamina e destrói ecossistemas e os crupiês do cassino financeiro devastam a economia. Liberdade não é sinônimo de felicidade pessoal e liberdade pessoal em excesso é algo perigosamente entrópico e vazio, o que explica a preocupação do autor com a crescente liberdade que as pessoas ora usufruem para se ocupar e distrair com toda sorte de bobagens (TV, celulares, e-mail, videogames), em detrimento de afazeres e recreios que de fato nos enriqueçam intelectual e culturalmente.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.