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Feliz final dos tempos

O moral está baixo, a moral mais baixa ainda. Entre as coisas totalmente liberadas está a escrotidão total

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado de S.Paulo

26 de dezembro de 2021 | 03h00

Todos escrevem textos para levantar o astral no fim de ano. Tentei, travei. Chavões, clichês, um Natal cheio de alegrias, amor, solidariedade, mundo novo, nova vida, tempo de esperança? Qual é? Com o que está aí? E com ELE lá! Escrevia, deletava tudo soava falso. Como provocar alento? 

Percebo como me faz mal a avalanche de comerciais com panetones, chocotones, chester, perus, tênder, cordeiros assados, filés amaciados com massagens orientais, rabanadas. Orgia. Veio-me à mente aquela série em que um gordo jornalista percorre lanchonetes americanas devorando sanduíches, a gordura escorrendo pelo queixo. Não, não me venha com gordofobia, é que tenho medo do dia em que, durante um programa, eu veja o sujeito explodir. 

Por que não mudo de canal, se as imagens me incomodam? Porque sofro da síndrome de fascínio pelo tenebroso, expressão de Otto Lara Resende, em um júri de concurso de contos, em que todos liam e reliam, treliam, os piores contos, atraídos pela indigência, mau gosto. O tenebroso é uma doença que emana de cada célula daquele que nos preside e cujo nome não se deve pronunciar.

Vejo a proliferação de programas de gastronomia. Tem de tudo, em todas as TVs e (agora vão me matar) e penso nos milhões de brasileiros que passam fome, buscam ossos nos lixos, restos de restaurantes, sem esquecer os que caçam lagartos, comem saúvas, sapos. Há os que engolem sapos, fazendo flexões com os chefes de bancos, autarquias, etc.

Leio para familiares, me advertem. Escrever isto no Natal? Levante o moral, dê animo. O moral está baixo, a moral mais baixa ainda. Entre várias coisas totalmente liberadas nestes tempos está a escrotidão total. Este clima de intolerância, mentiras, ódio, ultrajes, nos deixa doentes, contamina até animais. Meu gato Tom (homenagem a Jobim) acaba de ser diagnosticado com um tumor cancerígeno no focinho. 

Netos me perguntaram, qual foi seu melhor Natal? E o pior? Este foi aos 8 anos. Depois de espera ansiosa, ganhei um caminhão de madeira, saí à rua e me roubaram. A sordidez conheci cedo. Melhor? O deslumbramento de um carro movido a pedal na vitrine da Casa Barbieri, em Araraquara. Caro. Ainda compro um, tenho o dinheiro e o tamanho para me enfiar nele e pedalar. Basta para te dar alta, diz o terapeuta Hiroshi. Penso em mudar para Lisboa. Mas e se, estando na Taberna das Flores, dou com brasileiros que têm dinheiro e compraram tudo, inflacionaram aluguéis, desalojaram famílias? Preciso escapar rápido, deixando o bacalhau às iscas ou as berinjelas fritas com mel de cana da Madeira? 

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