'Felix Culpa'

Jeremy Gavron armou intriga detetivesca com palavras e frases de cerca de 80 escritores

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

03 Março 2018 | 02h00

O título, vagamente latino, pode ser traduzido como Feliz Erro ou A Queda de Felix, já que Felix, além de adjetivo (feliz, afortunado), é nome próprio. No caso, irônico. Como pode ter sido feliz (ou afortunado) um sujeito que morreu muito jovem, depois de cumprir pena por um crime efetivamente cometido por seus colegas de quadrilha?

Uma interpretação teológica comparou-o a Adão, cujo erro, falha ou culpa (vulgo pecado original) possibilitou-lhe a redenção através de Cristo, blá-blá-blá, blá. Por mim, ver Felix Causa como uma “parábola do mundo moderno” e uma condenação da indiferença da sociedade pelo inferno carcerário já está de bom tamanho.

Mas, para chegar a qualquer uma dessas e outras conclusões, é preciso ler o excêntrico romance de Jeremy Gavron, um judeu inglês de 56 anos, com seis livros na algibeira, nenhum mais ousado do que este, lançado há dias pela editora australiana Scribe e à venda em edição eletrônica. “Um dos romances mais inovadores e inventivos” que Ali Smith leu nos últimos tempos. Outras vozes respeitáveis acharam a mesma coisa.

Qualificá-lo de tour de force e recomendá-lo apenas aos aficionados de escritores pós-modernistas como Italo Calvino e Georges Perec, com suas imbricadas histórias cheias de alusões e referências literárias ou mesmo sem uma vogal específica em sua narrativa (O Sumiço, de Perec, não contém a letra “e”), só parcialmente resume a questão. Para degustá-lo a contento é preciso ter grande intimidade com a literatura de língua inglesa - pronunciado espírito lúdico e enorme paciência.

Gavron armou uma intriga detetivesca a partir de palavras e frases de cerca de 80 escritores, extraídas de centenas de livros e recontextualizadas ao longo de 33 curtíssimos capítulos e conectadas com a perícia de um neurocirurgião. Em 14 capítulos não há qualquer interferência do autor; nos demais 19, ele insere, aqui e ali, uma vírgula, um artigo, muda o tempo de um verbo, visando um amálgama mais preciso. Mais que um pilhagem sofisticada, com a abonação de T. S. Eliot (“Poetas imaturos imitam, poetas maduros roubam”), Gravon tentou estabelecer um diálogo tão íntimo quanto esotérico com livros que marcaram sua vida.

Felix Culpa pertence a uma ilustre vertente experimentalista, que tem partes com o “cento”, aquela latinófila forma poética construída com versos de diversas procedências; uma colagem, enfim, como os anárquicos folguedos com a língua que, por volta de 1925, os surrealistas apelidaram de “cadavre exquis” (cadáver esquisito). As colagens dos surrealistas eram jogos coletivos, com dois ou mais participantes aditando fragmentos de criações alheias a um frankenstein poético, matriz, aliás, de uma brincadeira de salão que virou mania entre os intelectuais deste lado do Atlântico, em décadas mais recentes.

A colagem de Gavron é uma experiência solitária, quase tão laboriosa quanto The Clock, aquela instalação com múltiplos e cinematográficos relógios sincronizados em tempo real pelo suíço-americano Christian Marclay, montada no MoMa oito anos atrás.

A frase que abre Felix Culpa (“Nunca comece um livro falando do tempo”), tabu literário já atribuído a Hemingway e que na década passada ganhou repercussão num decálogo estilístico de Elmore Leonard, não foi pinçada de nenhum dos dois, pois ambos não aparecem na lista de autores estampada no final do livro. A lista, inacreditavelmente sem Shakespeare, Poe e Hemingway, ajuda, mas não nos fornece a origem de cada referência. Ou seja, não dá para colar.

O fragmento que fecha o romance, “End is not yet told”, me soou bíblico, do Evangelho de S. Mateus. A Bíblia é, claro, uma das fontes a que Gavron recorre com mais frequência. Certas passagens (“other things, too” - outras coisas, também; “is so life is” - assim é a vida; “transferred” - transferido), demasiado curtas e lacônicas, só com mais DNA à disposição teria condições de eventualmente localizá-las.

Um devoto de F. Scott Fitzgerald talvez não encontre dificuldade para identificar de onde veio a linha 9 do romance (“privy to the secret griefs of wild, unknown men”) ou “as mágoas secretas de indivíduos violentos, desconhecidos”, na tradução que Brenno Silveira deu a O Grande Gatsby. Com cinco “contribuições”, extraídas de cinco romances diferentes, Cormac McCarthy é o mais citado do livro, empatando com Raymond Chandler e superando Calvino (com três) e George Orwell (com duas: 1984 e Na Pior em Paris e Londres).

Depois de tentar dar sentido a toda a trama, dediquei-me a rastrear frase por frase e desvendar-lhes a procedência. Com razoável sucesso. Principalmente quando confrontado com romancistas de quem sou mais íntimo, como Jack London, Graham Greene, George Orwell, Saul Bellow, J.M. Coetzee ou clássicos como Charles Dickens, Mary Shelley, Mark Twain, Daniel Defoe, Robert Louis Stevenson, Joseph Conrad, e de leituras mais recentes, como Roberto Bolaño, frugalmente representado por uma frase de Estrela Distante.

Não foi nada fácil chegar às digitais de Jean Genet (Diário de Um Ladrão), do Nabokov de O Olho, de V.S. Naipaul (A Curva do Rio), Amos Oz (A Tale of Love and Darkness), Joseph Mitchell (Up in the Old Hotel, O Segredo de Joe Gould), mesmo às de Conan Doyle e Tolkien foi trabalhoso. Como nunca li Patrick Modiano, não saberia localizar sua contribuição ao drama de Felix, como não consegui achar as de Heinrich Böll (A Honra Perdida de Katharina Blum), Kenzaburö Öe e Jack Shaeffer.

Jack Shaeffer?! Pois é, até o autor do romance que deu origem ao filme Shane (Os Brutos Também Amam) entrou com alguma coisinha nessa bizarra assemblage. 

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