Divulgação
Divulgação

Felicity Lott demonstra absoluto controle da voz

A soprano inglesa se apresentou ao lado do pianista Maciej Pikulslki na Sala São Paulo

O Estado de S.Paulo

13 de setembro de 2012 | 03h12

Crítica: João Marcos Coelho

Mais que um gênero, o lied é um período de tempo. A grosso modo, um século e meio, entre as décadas finais do século 18 e as primeiras do século 20. Parece feito sob medida para a sensibilidade romântica alemã, mas espraiou-se, modificado, pelas demais culturas europeias. Teve como precursoras, no início do século 17, as canções populares entoadas pelos trovadores alemães, acompanhados por um instrumento; sofisticou-se, adotou o piano como parceiro da voz, teve em Schubert seu ponto culminante. Foi popularíssimo no século 19, porque era cantado tanto nas "liederabende" quanto em casa. Saboreou, portanto, algo quase sempre impossível: refinamento e popularidade simultâneos. O lied raramente ultrapassa os 5 minutos. Curto porém não significa simples. Não há arte com maior densidade expressiva.

É a partir desta moldura histórica e estética que se pode curtir e avaliar melhor o admirável recital que Felicity Lott fez anteontem, na Sala São Paulo. Em primeiro lugar, o absoluto controle que ela tem de sua bela voz: na emissão e afinação, na transição entre o pianíssimo, o piano e o mezzo-forte, na respiração incrível que a leva a jamais cortar versos que, em longas linhas melódicas, exigem continuidade no canto. E, além disso, Felicity deu um verdadeiro show de concepção estilística adequada em cada uma das várias modalidades mostras no recital. Como o lied essencial de Schubert (quatro canções de enorme beleza) que exige completa afinidade entre a voz e o piano (no caso, correto, do polonês Maciej Pikulski). Ou as "mélodies" francesas de Gounod, Saint-Saëns e a suprema elegância de Reynaldo Hahn, alcançando até Fauré e Poulenc. De fato, a França é paixão pessoal, afetiva e também artística da cantora.

Brincou com as línguas, ao interpretar canções em inglês de franceses, como The Fountain Mingles with the River de Gounod, e Cherry Tree Farm de Saint-Saëns. E, entre os ingleses, escolheu cinco belas canções - três de Elgar, incluindo a buliçosa The Shepherd's Song, e duas de Frank Brigde, com destaque para a comovente When you Are Old and Grey. E, para os que não a conheciam no reino lírico, esbanjou domínio de cena e histrionismo, em performances irresistíveis de árias de Offenbach, como as engraçadíssimas Dites-lui e Ah! J'aime les Militaires!.

Neste tipo de recitais, canções diferentes agradam mais a este ou aquele espectador, dependendo de seu estado de ânimo e/ou afinidade. Para mim, que felizmente pude assistir na terceira fila, praticamente no gargarejo, porque a Sala São Paulo não lotou, os momentos memoráveis foram as duas declarações de amor à música. Primeiro, "À Música", An die Musik no original alemão. Schubert a compôs em 1817 e nos dez anos seguintes ela serviu como uma espécie de canção saideira das schubertíadas (as famosas noitadas de poesia e música comandadas do piano pelo compositor, um dos maiores boêmios vienenses das primeiras décadas do século 19). Ela encerrava, às vezes já de manhã, as noitadas regadas a música e bebida. A certa altura, os versos de Franz Von Schober falam que "você preencheu meu coração com o amor mais caloroso/me levou a um mundo melhor". E, algum tempo depois, Felicity interpretou Speak Music, onde o poema de Arthur Christopher Benson pede: "Fala, fala, música, traga fantasias para mim".

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.