Felicidade

Alegria é a prova dos noves, escreveu Oswald de Andrade, no Manifesto Antropófago, ainda na década de 1920, lembro-me enquanto leio uma resenha na revista New Yorker de 22 de março dedicada a estudos da felicidade. Talvez tenha sido ele o primeiro crítico do economicismo, se você me permite um neologismo. O dinheiro não é tudo, em outras palavras. Preciso voltar ao velho e bom modernista, penso. O mais selvagem de todos, dos brasileiros, ao menos. Poucos conseguem colocar tanto brilho em tão poucas palavras. Sou fã, sobretudo, dos dois manifestos, o Antropófago e o da Poesia Pau-Brasil.

Matthew Shirts, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

A resenha da New Yorker é surpreendente. A autora, Elizabeth Kolbert, cita uma pesquisa de 1978, o clássico na área de "estudos de felicidade", em que foram comparados ganhadores da loteria - de somas entre US$ 50 mil e US$ 1 milhão -, com vítimas de acidentes devastadores e outros escolhidos ao acaso na lista telefônica. Todos viviam no Estado norte-americano de Illinois (onde fica Chicago e onde morava Obama, antes de se mudar para a Casa Branca). Não existiam grandes diferenças entre seus níveis de felicidade, concluiu-se.

De 1978 para cá, outros estudos - a felicidade tornou-se um tema na academia - mostraram que entre diversas atividades associadas à alegria e ao bem-estar, como ganhar um aumento de salário, ter um filho ou mudar-se para a Califórnia, nenhuma delas teve o efeito esperado. A conclusão é que as pessoas dificilmente conseguem saber o que as tornarão felizes.

Isso vale para os Estados Unidos, onde, dos anos 50 para cá, a renda per capita dobrou, mas os níveis de felicidade se mantiveram estáveis. Em um livro recente, The Políticas of Happiness, o autor Derek Bok, ex-presidente da Universidade Harvard, leva os resultados desses estudos às conclusões lógicas e pergunta: por que trabalhar tanto e elevar tanto o PIB, a um custo altíssimo em termos pessoais e ambientais, se isso não nos traz felicidade? Na economia mais capitalista do mundo, questionar a utilidade do crescimento é uma atitude radical, diga-se de passagem.

Mas não é só nos Estados Unidos que esse tipo de crítica vem sendo elaborada. Em anos recentes, escreve Kolbert, os estudos de felicidade se internacionalizaram. Cita, por exemplo, o livro Happiness Around the World: The Paradox of Happy Peasants and Miserable Millionaires (Oxford), de Carol Graham. Ou seja, Felicidade ao Redor do Planeta: O Paradoxo de Camponeses Alegres e Milionários Miseráveis. A autora nota que, em quase todo lugar, os ricos tendem a se sentir um pouco melhor com suas vidas do que os pobres. Mas nem essa pequena diferença vale entre culturas diferentes. Os nigerianos, por exemplo, se consideram tão felizes quanto os japoneses, embora ganhem, em média, 25 vezes menos. A satisfação pessoal dos naturais de Bangladesh, os bengalis, é o dobro da dos russos, quatro vezes mais ricos. Os panamenhos são duas vezes mais felizes que os argentinos, ganhando a metade.

As pesquisas de Graham na América Latina apontam, ainda, que os pobres da região - "the very poor", no original - tendem a ser "impressionantemente alto-astral". Esses resultados poderiam levar a questionamentos morais duvidosos. Do tipo: por que combater a pobreza, se os pobres são felizes?

Mas não é essa a conclusão do ensaio de Kolbert. A primeira delas é que é preciso mudar a maneira de medir riqueza, dando peso maior à satisfação das pessoas. O consumo não é tudo. Como diz o ganhador do Prêmio Nobel de Economia, Amartya Sem: "Trânsito parado pode até aumentar o PIB, em função dos gastos maiores com combustível, mas não o bem-estar." E também, que a felicidade tampouco é tudo. Argumenta ela, falando do caso americano, que destruir o planeta e explorar os pobres seria errado, mesmo que tivéssemos curtido o processo ao longo dos últimos 50 anos. Dá o que pensar.

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