Feito para provocar reações, favoráveis ou contrárias

Ninguém, espera-se, vai negar o mérito cinematográfico dessa mistura de thriller político, drama policial e filme de Máfia. Com alguns bambas nos créditos técnicos (Lula Carvalho na fotografia, Daniel Rezende na montagem, Braulio Mantovani no roteiro, elenco de ponta), José Padilha apresenta um filme forte, de impacto, feito para provocar reações, favoráveis ou contrárias. Ninguém que o veja há de ficar indiferente - o que, se confirmado, será grande feito numa época em que quase tudo cai no vazio.

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2010 | 00h00

Essa força de Tropa de Elite 2 vem de sua qualidade de espetáculo cinematográfico mas, também, de um aumento de complexidade do personagem principal. Se em Tropa 1 o então capitão Nascimento ainda era um personagem um tanto plano, aqui ele ganha arestas. Promovido a tenente-coronel e transformado em subsecretário de Segurança do Rio de Janeiro, Nascimento (Wagner Moura) terá de reavaliar algumas de suas certezas e inclusive reconsiderar o tipo humano que mais lhe parece desprezível, o militante dos direitos humanos - Rodrigo Fraga (Irandhir Santos). Terá ainda de encarar o conflito pessoal com o filho adolescente.

Para adensar também sua trama, Padilha busca pontos de apoio na realidade - Fraga é inspirado em Marcelo Freixo, deputado do PSOL que presidiu a CPI das milícias no Rio; a jornalista vivida por Tainá Müller é uma referência ao repórter assassinado Tim Lopes, e por aí vai. Esse contato com o real é explicitado desde o início, quando se avisa que aquela é uma obra de ficção, mas que se parece demais com a realidade social brasileira.

Para quem lhe cobrava falta de contextualização em Tropa 1, Padilha responde indo do microuniverso do crime e da polícia ao macro da política em Tropa 2. No entanto, o didatismo da narração em off e um certo cartesianismo o impedem de dar conta das ambiguidades do tema. Não raro recorre a clichês (os policiais corruptos, o jornalista venal, etc.) e ao uso hábil de bordões de linguagem e violência buscando a catarse do público, mais do que a reflexão. Cai num impasse - se o problema da segurança é político, apenas uma resposta política pode enfrentá-lo. Mas como esperá-la, se o sistema é completamente corroído por dentro? Nesse sentido, o sobrevoo da câmera sobre Brasília é uma catarse a mais proposta ao público, o que pode ser ótimo em termos de administração de tensões e frustrações. Mas não significa necessariamente um ganho em compreensão.

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