Feira dos milhões

SP-Arte atraiu 22.500 visitantes e vendeu mais que nas edições anteriores

ANTONIO GONÇALVES FILHO, O Estado de S.Paulo

11 de abril de 2013 | 02h16

A nona edição da SP-Arte (Feira Internacional de Arte de São Paulo) terminou com um balanço positivo não só para os galeristas brasileiros como para os estrangeiros, que se surpreenderam com os preços relativamente modestos dos artistas nacionais - e estamos falando de um veterano consagrado como Antonio Dias, com mais de meio século de carreira, vendido pela Galeria Nara Roesler por US$ 600 mil. A participação de galerias estrangeiras de peso como a Gagosian, Hauser & Wirth, Pace, Sprüth Magers e Van de Weghe, entre outras, serviu para animar colecionadores brasileiros, que disputaram obras de artistas modernistas históricos, como Alexander Calder (de US$ 1,2 milhão a US$ 8,5 milhões) e Jean Dubuffet, ou contemporâneos, como o fotógrafo japonês Hiroshi Sugimoto (uma foto sua alcançou US$ 340 mil num leilão internacional) - os três vendidos pela Pace, que tem 70 grandes artistas no elenco, do alemão Josef Albers (1888 -1976) ao chinês Zhang Xiagang, passando pelo americano Rauschenberg (1925-2008).

A grande estrela da Pace, no entanto, foi o pintor japonês Yoshitomo Nara, 54, cuja arte ficou conhecida nos anos 1990 graças à emergência de um cenário favorável à linguagem pop (Nara tem certo parentesco com a sintaxe visual do mangá, pintando meninas de olhos grandes e animais típicos de cartuns). É uma pintura de traços simples, mas preço sofisticado: US$ 650 mil. Ainda assim, as galerias brasileiras venderam obras melhores e de valor superior. Um exemplo disso é a escultura cinética do venezuelano Jesús Rafael Soto (1923- 2005), Écriture Verticale Jaune, obra em madeira e metal, de 1989, vendida pela Dan Galeria a um colecionador brasileiro por R$ 1,8 milhão.

"Há dez anos, quando Soto ainda estava vivo, fiz uma exposição com obras suas e acho que o mercado brasileiro percebeu sua importância, pois foram muitas as galerias que mostraram seus trabalhos na SP-Arte, que já pode ser considerada a feira dos recordes, comparável às melhores lá de fora", observa o marchand Peter Cohn, proprietário da Dan. Com 122 galerias participantes, a feira deste ano registrou também um recorde de público, 22.500 visitantes - e não apenas curiosos, mas colecionadores brasileiros e estrangeiros dispostos a comprar.

Lado a lado, nos três andares da mostra, foi possível ver telas de Volpi e Picasso, móbiles de Calder e esculturas de Amilcar de Castro, pinturas de Chagall e Guignard, Richard Serra e Mira Schendel, numa mostra que cobriu parte da história do modernismo europeu e americano e também a contemporaneidade, representada por jovens como Bruno Dunley e Rodrigo Bivar - respectivamente com 29 e 33 anos . Com preços acessíveis (em torno de R$ 25 mil), ambos tiveram obras vendidas na feira, o primeiro pela galeria Nara Roesler e o segundo pela Millan.

Um fenômeno também entre os jovens contemporâneos é a portuguesa Joana Vasconcelos, nascida por acaso em Paris e comercializada aqui pela Casa Triângulo. Representante de Portugal na próxima Bienal de Veneza, em junho, Joana foi objeto de uma reportagem publicada recentemente no Caderno 2, que explicava como sua obra A Noiva (2001), feita de tampões higiênicos (OB), saltou de US$ 900 para US$ 500 mil do dia para a noite, depois de um advogado que processava a Johnson & Johnson mostrar interesse incomum por ela. O marchand Ricardo Trevisan, da Casa Triângulo, confirma seu sucesso. "Vendemos tudo o que tínhamos no estande, inclusive todas as peças de Joana." E elas variavam de US$ 12 mil a US$ 120 mil. Dos artistas brasileiros representados por Trevisan, Sandra Cinto foi a que teve maior valorização (obras em torno de US$ 200 mil).

Trevisan destaca o papel institucional da SP-Arte como ponte para doações de obras destinadas a museus, feitas em parceria com instituições, e o programa de residência artística que manda artistas para Roma e Nova York. Foi durante a feira que a Fundação Edson Queiroz, de Fortaleza, com um dos maiores acervos de arte do País, anunciou a compra de uma fotografia da alemã Candida Höfer (cujas fotos são vendidas em leilões por volta de US$ 80 mil) para doar ao Museu de Arte Contemporânea e uma pintura de Paulo Whitaker, que será entregue ao acervo da Pinacoteca do Estado.

Fernanda Feitosa, idealizadora e diretora da SP-Arte, comemorando o sucesso da feira, saiu à meia-noite de segunda-feira exausta do Pavilhão da Bienal, mas feliz por ter atraído algumas das galerias mais conceituadas do Hemisfério Norte que, segundo ela, "deixaram o Brasil com ótima impressão no mercado".

A galerista Nara Roesler, por exemplo, estabeleceu algumas parcerias com os estrangeiros. "Eles mostraram interesse em exibir Carlito Carvalhosa e Arthur Lescher", diz, sem revelar os nome dos parceiros estrangeiros. "Foi benéfica a participação das galerias de fora, pois, em termos comparativos, os preços dos artistas brasileiros ainda são baixos, ou seja, elas não atrapalharam em nada nossas vendas."

A marchande Socorro de Andrade, sócia da Galeria Millan, elogiou a arquitetura expositiva de Pedro Borges, que reservou o térreo para as galerias que trabalham com os modernos e o segundo andar para os contemporâneos. Isso deu maior visibilidade às obras - e, consequentemente, às galerias. Do elenco da Millan, o artista que mais vendeu foi o fotógrafo Miguel Rio Branco (cinco trabalhos), sendo um deles para um novo colecionador. "Muitos jovens executivos já começam a comprar e tivemos a sorte de as galerias estrangeiras trazerem grifes, mas não obras tão boas como as brasileiras."

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