Febre de pop

Pela primeira vez, o crítico e escritor inglês Nick Hornby tem letras musicadas em um projeto com CD, vinil e livreto Teto de vidro

João Marcos Coelho ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

18 de dezembro de 2010 | 00h00

Não é novidade o intenso caso de amor que o escritor inglês Nick Hornby, 53 anos, mantém com a música. Paixão desmedida, a ponto de funcionar como sua porta de entrada para o modo como vê e se relaciona com o mundo exterior. É a música que lhe dá os parâmetros para criar, amar, viver. Por música, entenda-se música pop. Seu romance Alta Fidelidade, de 1995, que narra a história de um dono de loja de discos obcecado por LPs, foi ao cinema cinco anos mais tarde.

O futebol, sua segunda paixão, ajudou a popularizar ainda mais seu nome. Ele é boleiro dos bons, fanático pelo Arsenal e autor de um livro clássico no assunto, Febre de Bola. Em sua idade, só dá pra jogar futebol nos fins-de-semana, com os amigos. Impedimento que não existe no reino da música. Daí uma certa expectativa de que mais dia menos dia Nick realizaria seu sonho e se aventuraria a escrever letras de canções pop.

Este momento chegou. Há dois meses a gravadora norte-americana Nonesuch lançou as onze canções de Lonely Avenue, parceria de Nick com o norte-americano Ben Folds, em três versões: 1) vinil, formato que ele nunca deixou de amar; 2) CD; e 3) uma luxuosa edição que inclui, além do CD, um livreto de 152 páginas com todas as letras e quatro contos do escritor (NippleJesus, Not a Star, Otherwise Pandemonium e Small Country). Tudo em capa dura e ilustrado com fotos de Joel Meyerowitz.

Numa definição um pouco cruel mas próxima da verdade, Ben Folds, aos 44 anos, é uma espécie de sub Elton John. Talentoso, toca piano, costuma compor música e letra em suas canções. Tornou-se conhecido nos anos 90 com seu Ben Folds Five. Ou seja, é capaz de escrever aqueles nostálgicos rockabilly dos anos 50, blues e também rhythm"n"blues sacudidos. Ambos trabalharam à distância: Folds em Nashville, Nick em Londres. E se entenderam muito bem. O resultado vocal cheira a Beach Boys. Mas quem faz a diferença musical mesmo é o excelente arranjador Paul Buckmaster, não por acaso parceiro preferencial de... Elton John.

Tiozinhos impecáveis. Um site internacional qualificou o disco como plácido produto de dois tiozinhos. Eu acrescentaria impecáveis, porque o bom gosto frequenta as 11 faixas. Setenta por cento do mérito vai para Nick e seus torpedos de alta qualidade literária. Folds não compromete nos 30% restantes.

Em 31 Canções (todos os livros de Nick são editados no Brasil pela Rocco; este é de 2003), ele afirma que é muito raro encontrar uma boa letra de música no mundo pop. Mas não impossível. "Não há dúvida de que as letras são o calcanhar-de-aquiles do fã letrado do pop. Quanto mais tolerantes somos com a pretensão ou as impropriedades literárias do nosso artista favorito, mais fácil fica esquecer que compor canções é uma arte distinta da poesia (...) você não tem que ser um Bob Dylan (...) pode, se é corajoso, tentar ser Cole Porter e almejar textura, detalhe, sagacidade e verdade."

Pois Nick mata a cobra e mostra o pau. As letras das onze canções são notáveis, porque funcionam como microcontos. Veja a primeira canção, A Working Day ou "Um Dia de Trabalho", que conta a amarga história de um songwriter fracassado na primeira pessoa. Ele começa dizendo "Consigo fazer isto/ Acredite/ Sou bom o bastante/ Sou tão bom quanto eles / Não precisa acreditar em mim / Pergunte aos meus amigos / Pergunte à minha irmã / Todos eles acham que minhas composições são de boa qualidade / No topo das paradas ao lado de qualquer um dos astros / Tudo o que eu preciso é de uma oportunidade / Sou um gênio." Mas depois cai na real: "Um sujeito na rede acha que eu sou uma droga / Ele deve saber o que diz / É dono do seu próprio blog / Sou um perdedor, sou um fingido / Acredite, já era / Estou falando sério e encerrando a carreira / Tudo que eu componho é um lixo."

Provocação. "Arte é provocação. É conseguir tirar uma reação das pessoas. E eu consegui." Lembra os urubus de Nuno Ramos, mas tal afirmação está na boca do personagem Dave, segurança de uma galeria de arte que vigia um quadro com a figura de Jesus feita com pares de seios de todos os tamanhos e feitios, no conto Jesus Mamilo, um dos quatro presentes na edição de luxo de Lonely Avenue. Pois Nick faz isso numa das canções mais inesperadas do CD, Levi Johnston''s Blues. Levi é o meninão que, em 2008 em plena campanha eleitoral nos EUA, engravidou Bristol, a filha de Sarah Palin, candidata à vice-presidência pelo Partido Republicano - episódio real mas parecido com do filme Gaiola das Loucas. Nick fez uma letra corrosiva e irônica: "Acordei esta manhã, adivinhem o que vi?/ Três mil câmeras apontadas para mim / Um sujeito diz "Você é o Levi?" Respondo "Este sou eu, excelência!" / "Bem, você engravidou a filha da candidata à vice-presidência" (...) / "Por onde você andou, na delinquência? / Sua sogra está a apenas um passo da presidência"/ Eu digo, "Sogra? Eu e Bristol não vamos nos casar"/ Eles dizem, "Vão sim, ela acaba de anunciar"."

DOC POMUS (trecho)

Um homem na cadeira de rodas no saguão do Forrest / Ao lado de grotescos, vigaristas, milionários na bancarrota / Mafiosos, policiais, putas, cafetões e marxistas / Todas as facetas da vida humana estão ali / O homem na cadeira de rodas escuta a conversa / Ele escreve todas as besteiras loucas que ouve / Não pode se locomover, mas isto não importa de fato / No Forrest uma pessoa precisa apenas de olhos e ouvidos / E lá vêm eles, os sucessos e fracassos / Turn Me Loose, Lonely Avenue / E lá em Nashville Elvis canta Suspicion / Pomus/Shuman, 1962 / E ele jamais poderia ser um daqueles aleijados felizes / Do tipo que sorri e diz que a vida é boa / Ele era furioso, assustado e amargo / E descobriu uma maneira de ganhar dinheiro com seus sentimentos / De volta ao Forrest, no restaurante de carnes perto do saguão / Outro comensal recebe três balas na cabeça / Doc abaixa o olhar e continua a comer seu linguini...

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