Gabriela Biló/Estadão
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Feboapá

Por que a Marinha nem ao menos programou uma regata de caiaques no Lago Paranoá?

Sérgio Augusto, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2021 | 03h00

O presidente, apesar de ter sido contra a “vacina chinesa”, organizou e comandou em Brasília um desfile de blindados que a todos lembrou aquelas exibições de pujança bélica da China e outros regimes de força belicamente pujantes. A Praça dos Três Poderes (que na verdade são quatro, se acrescentarmos o poder militar – e ai de nós se não o fizermos) virou a Praça da Paz Celestial, mas sem derramamento de sangue e debaixo da maior chacota, interna e externa, de quantas Jair Jong-um já provocou em seus 32 meses de acintosa desgovernança. 

O inglês The Guardian, o jornal que mais assiduamente acompanha as alucinações do Trump de Glicério, reduziu o Brasil vigente a uma “república de bananas”. Pelas redes sociais, entulhadas de memes e imprecações contra o golpista motoqueiro, muita gente invocou a figura de Stanislaw (Lalau) Ponte Preta e seu Febeapá (Festival de Besteira que Assola o País), lamentando a ausência de uma cobertura diária da insânia nacional nos moldes da que o irreverente Lalau fazia no jornal Última Hora, na década de 1960, e hoje quase certamente faria na mídia eletrônica. 

O Febeapá foi a mais popular catarse aos primeiros anos da ditadura, uma reação avacalhante às suas arbitrariedades, ao farisaísmo e à estupidez de seus guardiões, executivos e beneficiários civis e fardados. Vexames como proibir a venda de vodca “para combater o comunismo” e exigir a prisão de autores mortos de obras subitamente proibidas pelo regime, como a tragédia grega Electra (de Sófocles) e o romance O Vermelho e o Negro (de Stendhal), não escapavam ao humor do mais moleque dos Ponte Preta.

Nunca saberemos se e como o Febeapá teria sobrevivido ao arrocho da censura no final de 1968, pois Sérgio Porto, a verdadeira identidade de Lalau, morreu de enfarte 74 dias antes da promulgação do AI-5.

Podemos, contudo, imaginar qual seria sua reação à palhaçada verde-oliva de terça-feira, urdida pelo presidente para intimidar o Congresso, testar seu potencial putschista e humilhar, uma vez mais, seus comandantes fardados, e nos sugerir a criação, em regime de urgência, do Feboapá (Festival de Bolsonarices que Assola o País). 

Qual nome Lalau teria dado à micareta blindada cuja missão oficial era entregar em mãos um convite da Marinha ao presidente? Tanqueada? Tanqueciata? Por que não brucutrottoir? Afinal, os blindados do Exército que reprimiam com jatos de água as manifestações de rua contra a ditadura ganharam da estudantada o mimoso apelido de “brucutu”, hoje também sinônimo de bolsonarista puro-sangue. 

Quando, durante uma razia no centro do Rio, em 1968, um brucutu enguiçou, o psicanalista Hélio Pellegrino, dos mais inflamados críticos do regime militar, escreveu: “O brucutu brochou”. Faço ideia do verbo que Pellegrino teria empregado para descrever o que um fumacento brucutu soltou durante a parada bolsonarista do último 10 de agosto, não à toa difamado como o “mês do cachorro doido”. 

O primeiro senão que Lalau apontaria seria a preponderância da Marinha naquele desfile de tanques alegóricos, queimando óleo no Eixo Monumental. Por que a Marinha nem ao menos programou uma regata de caiaques no Lago Paranoá?, indagaria o humorista, a quem talvez ocorresse observar, como ocorreu ao governador do Maranhão, Flávio Dino, que aquela foi a entrega de correspondência mais cara da história do Brasil. 

A falta de imaginação dos organizadores também seria motivo de gozação. Alguém lembrou que o ex-ditador Alberto Fujimori, vulgo “Chinochet”, tentou intimidar, no mesmo estilo, o Congresso peruano e se deu mal; tão mal que acabou perdendo o cargo e a liberdade. 

Outros puxaram da memória a bravata do general Newton Cruz que, na véspera da votação das Diretas-Já, em 1984, desfilou mussolinianamente pela capital federal à frente de 116 tanques, que as más línguas juram ser os mesmos da tanqueata bolsonarista. 

Há controvérsias. Já ouvi dizer que parte dos blindados é sobra da Guerra da Coreia (1950-1953). Isso valeu a Bolsonaro o indevido apelido de “rainha da sucata” que, como se sabe, é um apanágio de Regina Duarte, a ministra que foi sem nunca ter sido, mas alguma coisa deixou na alma do governo. 

Millôr morreu convicto de que o Brasil tem um enorme passado pela frente. Os humoristas nos entendem e explicam. Luis Fernando Verissimo desconfia seriamente que, no Brasil, este bizarro país onde um grupo que se autodenomina “médicos pela vida” prescreve remédio que mata, a história não se repete como farsa, as farsas é que se repetem como história. 

Daí por que meu ego inflou quando, na manhã em que os tanques, por serem da Marinha, singravam Brasília, o coronel Helcio Bruno, depondo na CPI da Covid, revelou, entre mentiras clamorosas e silêncios constrangedores, que em 1976 estudava, com muito orgulho, na Academia Militar das Agulhas Negras, na companhia de quase todos os milicos que hoje estão por cima da carne-seca. 

Naquele ano, excusez du peu, eu trabalhava no Pasquim, na companhia de Millôr, Verissimo e outros mestres do humor, mas não, desafortunadamente, de Sergio Porto, padrinho in absentia do jornaleco. Mais tarde, viramos primos não consanguíneos. Mais que um consolo, uma honra.

É JORNALISTA E ESCRITOR, AUTOR DE ‘ESSE MUNDO É UM PANDEIRO’

 

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