Fé, videntes e Nova York, por Allen

Cineasta comenta o novo filme, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos

Entrevista com

Dave Itzkoff, The New York Times, O Estado de S.Paulo

17 de outubro de 2010 | 01h00

Aos 74 anos, Woody Allen, prolífico diretor e nova-iorquino emblemático, não parece ter encontrado a religião. Mas a ideia da fé informa seu mais recente longa, Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos, que estreia no Brasil no dia 17 de dezembro. No filme, com o fim do relacionamento entre um casal de londrinos (Anthony Hopkins e Gemma Jones), a mulher busca conforto no sobrenatural, o que leva a consequências imprevistas no casamento de sua filha (Naomi Watts) com o marido (Josh Brolin).

"Para mim", disse Allen, "não existe diferença verdadeira entre uma vidente, um biscoito da sorte e as religiões organizadas. São todas igualmente válidas ou inválidas. E igualmente úteis". Allen conversou comigo a respeito de seu novo filme, de como as temáticas de Você Vai Conhecer o Homem de Seus Sonhos ecoam em sua vida pessoal, e respondeu se já rodou seu último filme em Nova York.

A ideia de poderes psíquicos e vidas anteriores, ou ao menos pessoas que acreditam nestas coisas, são elementos centrais no seu novo filme. Como surgiu o interesse em escrever um roteiro sobre estes temas?

Eu estava interessado no conceito da fé em alguma coisa. Sei que isto soa deprimente, mas precisamos de algumas ilusões para nos manter funcionando. E as pessoas que conseguem se iludir parecem ser mais felizes do que aquelas que não se iludem. Conheci pessoas que depositaram sua fé na religião e nos videntes. Assim, me ocorreu que esta poderia ser uma boa personagem para um filme: uma mulher para quem tudo deu errado e, de repente, o fato de uma vidente ler a sorte dela a ajudou. O problema é que, no fim, um despertar abrupto a aguarda.

Qual das proposições considera mais plausível: a existência de vidas passadas ou a existência de Deus?

Nenhuma das duas. Minha perspectiva em relação a estes temas é impiedosa e científica. Simplesmente tenho a sensação de que as coisas não são diferentes daquilo que vemos.

Como se sente em relação ao processo de envelhecimento?

Bem, eu me oponho a ele (risos). Acho que não há nada de recomendável neste processo. Não há ganho de sabedoria com o passar dos anos. As pessoas tentam passar um verniz no envelhecimento e falam em amadurecimento. Passamos a entender a vida e aceitar as coisas. Mas qualquer um trocaria tudo isto para poder voltar aos 35 anos. Já vivenciei a experiência de acordar no meio da noite pensando a respeito da própria mortalidade, sentindo-a próxima, palpável, e isto faz um arrepio percorrer o corpo. É isto que ocorre com Anthony Hopkins no começo do filme e, a partir daquele momento, ele não quis mais ouvir os comentários da mulher, mais realista: "Você não pode continuar fazendo isto - não é mais um jovem". É claro que ela tem razão, mas ninguém quer escutar este tipo de coisa.

O fato de ter envelhecido mudou algo na sua maneira de filmar? Haveria uma certa melancolia emergindo nos seus filmes mais recentes?

Não, o processo funciona por meio da tentativa e do erro. Não existe rima e nem motivo nas coisas que faço. Tento apenas fazer o que parece certo no momento. Em toda a minha vida, nunca assisti a um filme meu depois de lançá-lo. Nunca. Não vejo Um Assaltante Bem Trapalhão desde 1968. Nunca assisti a Annie Hall e nem a Manhattan, e nem a nenhum dos filmes que fiz depois destes. Quanto estou caminhando na esteira diante da televisão, passando de um canal para o outro, e há um de meus filmes sendo exibido, mudo de emissora imediatamente, pois acho que assisti-los só me deixaria deprimido. Eu pensaria, "Meu Deus, que horror, se ao menos eu tivesse a chance de refazer o filme".

Você disse à imprensa europeia que rodar filmes em Nova York se tornou muito caro. Acha que já fez seu último filme na cidade?

Minha primeira opção de locação sempre será Nova York. Este seria o meu maior desejo - trabalhar no local onde se vive é sem dúvida um privilégio excepcional, e tenho certeza de que voltarei a filmar na cidade. Mas o pouco dinheiro que tenho rende mais quando filmamos em outros lugares. As cidades às quais estou me referindo - Londres, Paris, Barcelona - são muito cosmopolitas, e são parecidas com Nova York. Tenho mais facilidade para arcar com as despesas. Para mim, filmar em Nova York é um privilégio, e não me importo com o fato de o preço ser mais caro. Mas eu preciso dispor do dinheiro, preciso ser capaz de arcar com as despesas locais. Em Nova York, um filme orçado em US$ 12 milhões sairia por US$ 15 milhões. Se eu não tiver tanto dinheiro, terei que filmar em lugares mais acessíveis.

Estava preparado para a impressionante cobertura da mídia que teve início quando você anunciou a presença de Carla Bruni-Sarkozy nas filmagens de seu próximo filme, Midnight in Paris?

Fiquei surpreso com o nível do jornalismo referente à cobertura da presença dela. O papel dela é pequeno - uma personagem de verdade, mas pequeno. Rodei as cenas com ela no primeiro dia, e todos os jornais disseram que ela foi péssima, que tivemos de fazer 32 tomadas. É claro que não cheguei a rodar 10 tomadas com Carla. Tratava-se apenas de um número mágico inventado por algum repórter. Então publicaram que o marido veio visitá-la no set de filmagens e ficou bravo com ela. Ele veio ao set uma vez, e ficou encantado. Achou que ela tinha um dom natural para atuar e não poderia ter ficado mais contente.

Isto serviria como boa anedota para o pôster do filme.

Por algum motivo a imprensa queria fazer comentários desagradáveis a respeito dela. Não sei se eles têm algo contra os Sarkozys, ou se foi apenas uma maneira mais fácil de vender jornais. Mas as invencionices foram muito descabidas e completamente falsas, e então me perguntei, será que é isto o que ocorre com o Afeganistão, com a economia e com as questões de maior importância? Trata-se de uma questão trivial. Uma resposta mais curta para a pergunta seria: eu não estava preparado para o nível de atenção que o filme recebeu em função da presença de Madame Sarkozy.

Quando lhe sobra algum tempo livre entre os projetos, como agora, o que gosta de fazer?

Eu me ocupo de coisas normais. Levo os filhos à escola pela manhã. Faço caminhadas com minha mulher, toco com meu grupo de jazz. Faço também os exercícios obrigatórios na esteira e com os pesos para manter a forma, para não ficar mais decrépito do que já estou. Em geral não assisto aos grandes filmes de Hollywood. Assisti Winter"s Bone outro dia e gostei muito do filme, adorei o elenco. Quando estive em Paris, tive a oportunidade de ler um pouco de Tolstoi e Norman Mailer. Coisas que acabei perdendo ao longo dos anos.

Tive a esperança de encontrá-lo na plateia acompanhando as 12 horas da peça Demônios, de Dostoievski, produzida pelo Lincoln Center Festival no último verão.

Não, não, sou um sujeito simples. Li este material, mais por obrigação do que por prazer. Pois, para mim, o prazer está numa cerveja gelada e num jogo de futebol. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

QUEM É

WOODY ALLEN

DIRETOR, ATOR E MÚSICO

Nascido em 1935, em Nova York, Allan Stewart Konigsberg (seu nome real) é um dos principais cineastas atuais, com dramas e comédias. Ganhou Oscar como diretor e roteirista por Noivo Neurótico, Noiva Nervosa (1977)

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