Fé que salva editoras

Setor de livros religiosos foi o que mais cresceu no Brasil em 2010, diz estudo

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

18 de agosto de 2011 | 00h00

O número de livros vendidos no Brasil cresceu 13% em 2010, mostra o estudo anual feito pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas, e os de cunho religioso foram os que mais se destacaram. As edições nas áreas de literatura adulta e juvenil, técnica e de didáticos, todas subiram em relação a 2009, mas esse aumento não passou de 22%. Já o dos religiosos ficou perto de 40%. São os livros que têm o preço mais baixo entre os subsetores considerados pelo levantamento: saem das editoras por R$ 6,70, em média.

A explicação para os bons índices encontra-se, em parte, no enorme sucesso de Ágape, do Padre Marcelo Rossi, que traz sua reinterpretação de passagens do Evangelho de São João, e que se tornou o principal best-seller do País - um legítimo megasseller, com mais de 5 milhões de exemplares nas mãos de fiéis católicos em apenas um ano.

E pode estar também nas publicações relacionadas ao espiritismo, que ano passado tiveram novas tiragens, turbinadas pelo centenário do médium Chico Xavier e os filmes e programas de televisão sobre ele.

"Livros como o do Padre Marcelo fazem diferença nas estatísticas, mas isso não significa que o subsetor vá necessariamente se manter assim", diz Sônia Jardim, presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, que comentou ao lado da presidente da Câmara Brasileira do Livro, Karina Pansa, os dados apresentados pela pesquisadora da Fipe Leda Paulani anteontem, no Rio. As duas entidades encomendaram a pesquisa.

Embora se sobressaiam por terem apresentado o maior crescimento de 2009 para 2010, os livros religiosos, em termos absolutos, ficam em terceiro lugar na lista de exemplares vendidos, atrás dos didáticos (202,6 milhões) e das chamadas obras gerais (135,2 milhões): foram 74 milhões de unidades.

O universo pesquisado foi de 141 editoras, das 498 ativas, que publicam ao menos cinco títulos anuais e produzem 5 mil exemplares. Dessas, 231 são pequenas, com faturamento de até R$ 1 milhão por ano.

O desempenho das livrarias não foi avaliado, só o das editoras - o levantamento não analisa o comportamento da comercialização pela internet, por exemplo.

O setor enxerga os resultados com alguma satisfação, mas sem muito entusiasmo. O faturamento, de R$ 4,5 bilhões, significa crescimento real de apenas 2,6%. A redução do preço do livro - antigo pleito do governo federal para a democratização da leitura - vem desde 2004 e já acumula 34%.

"É gratificante observar que há mais leitores, assim como mais livrarias, o que contribui para a educação, a cultura e o desenvolvimento", observou Karina, ressalvando que o impacto disso no faturamento só será possível de se observar no longo prazo. "A margem das editoras vem sendo comprimida", lamentou Sônia.

Um ponto interessante é o aumento, pelo quarto ano seguido, das vendas no estilo "porta a porta". Essa modalidade, a que mais cresceu em 2010, inclui os catálogos de empresas como a Avon, que mistura títulos best-sellers a seus produtos de perfumaria e se vale da alta capilaridade da sua rede de revendedoras (está em mais de 1.500 municípios, mais ou menos o mesmo número de cidades brasileiras que possuem livrarias).

São edições compradas em grande quantidade pela empresa, e diferentes das encontradas nas livrarias: de bolso, mais simples e magras; por isso, mais baratas - algumas saem pela metade do preço.

O fortalecimento da classe C entra nessa conta. "São pessoas que agora se permitem a compra de um livro", explica a pesquisadora. "A classe C ainda não tem o hábito de ir a livrarias e demanda livros mais baratos. No caso da Avon, a consultora orienta a compra do livro como faz com o batom, ou seja, tem uma relação mais pessoal", avalia Sônia.

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