Fé, política e o retrocesso conservador

Apesar dos avanços democráticos, a ordem prevaleceu sobre a justiça

Luiz Carlos Bresser-Pereira, especial para O Estado de S. Paulo,

10 de maio de 2008 | 14h34

A Revolução Estudantil de 1968, que ocorreu em todo o mundo e teve seu grande momento no maio francês, não marcou o fim de uma era, mas o fim dos Anos Dourados do Capitalismo iniciados em 1945. A revolução não abriu caminhos, mas encerrou um período de grande transformação e de grande esperança que foram os anos 1950 e 1960. Depois do pesadelo das duas grandes guerras, a humanidade parecia voltar a acreditar em um mundo melhor, mais republicano, mais solidário. A idéia de progresso, que morrera em 1914, parecia renascer. O período entre 1945 e 1970 foi de grande desenvolvimento. Nesses anos, as taxas de crescimento econômico por habitante em todo o mundo bateram todos os recordes, mais do que dobrando em relação ao desempenho da primeira metade do século 20 ou do século anterior. Por isso a denominação Anos Dourados do Capitalismo. No plano político, as esperanças em um mundo mais democrático e mais justo ganhavam força. Os anos 50 já haviam sido de progresso político: os anos da Declaração dos Direitos do Homem das Nações Unidas, da independência das antigas colônias na África e na Ásia, das filosofias existencialistas e personalistas que afirmavam a responsabilidade de cada um de nós pelas nossas ações, do neo-realismo no cinema italiano, e dos beatniks começando uma revolução cultural. Mas foi nos anos 60 que o movimento transformador ganhou força, com o crescente ativismo e capacidade reivindicatória dos sindicatos, com a Revolução Estudantil, a revolução política da Igreja Católica da América Latina, com a Primavera de Praga, a nova independência sexual e pessoal das mulheres a partir da pílula anticoncepcional, a revolução cultural dos hippies, a explosão dos Beatles, a nouvelle vague na França, o cinema novo, a bossa nova e o tropicalismo no Brasil.  É claro que nem tudo caminhou na melhor direção. A Guerra do Vietnã aconteceu fundamentalmente nessa década, e foi um dos momentos de mais alta irracionalidade e barbárie dos tempos modernos. A própria Guerra Fria chegou a um momento de real risco no episódio dos mísseis russos levados para Cuba. Na América Latina, os anos 60 acabaram sendo trágicos porque, em nome dessa guerra ideológica, e especificamente da Revolução de Cuba, de 1959, houve um processo dominó de golpes militares com apoio dos Estados Unidos, que começou no Brasil em 1964, passou pela Argentina e o Uruguai, e terminou no Chile em 1973. Na China, a Revolução Cultural pretendia inscrever-se nesse quadro, mas, afinal, como acontece quando as utopias se radicalizam e se transformam em programa de ação revolucionária, tornou-se intolerante, contra o próprio pensamento que lhe deu origem, e, por isso, totalitária. Mas esses fatos não impediram que os anos 60 fossem anos de transformação e de esperança, em que o mais nobre dos objetivos políticos - a Justiça - pairou alto entre as expectativas de todos. Afinal, os Estados Unidos foram vencidos no Vietnã e, no fim da década, a revolução estudantil mundial e a revolução política da Igreja Católica da América Latina apontavam novos caminhos.  Caminhos, entretanto, que não foram seguidos. As duas revoluções terminaram: a revolução estudantil foi só um momento; a mudança na Igreja Católica perdeu força na América Latina e foi interrompida em nível mundial a partir do longo papado de João Paulo II. O retrocesso conservador, porém, não se limitou ao esvaziamento das duas revoluções utópicas. A partir de 1970 houve progresso técnico e material, a renda por habitante cresceu ainda que mais lentamente do que no período anterior, mas os novos tempos foram tempos contra-revolucionários, tristemente conservadores, foram um momento em que a ordem prevaleceu sobre a Justiça, e que a violência ressurgiu com força, apesar dos avanços democráticos. Apesar de o desenvolvimento científico e econômico terem continuado a ocorrer de forma acelerada, e de o mundo ser hoje mais próspero do que era então, é impossível não reconhecer que o mundo se tornou mais desigual e injusto, e, o que é pior, mais inseguro. Que o envolvimento cívico das pessoas diminuiu enquanto o individualismo avançava em quase toda parte. Que a renda, que se desconcentrava depois da 2ª Guerra Mundial, voltou a concentrar-se em quase todos os países. Que o crime organizado, o tráfico de drogas, de mulheres e crianças, e o terrorismo ganharam novo impulso. Que o crime continuou a grassar nas grandes cidades da periferia do sistema capitalista.  O individualismo e o conservadorismo de agora, assim como o crescente cinismo da classe média que nos anos 60 era a fonte de toda a mudança, são evidentes. Robert Putnam demonstrou-os amplamente em relação aos Estados Unidos. O espírito cívico, expresso no capital social, na existência de redes sociais e particularmente de organizações cívicas, que aumentava até os anos 60, entra em claro processo de retrocesso a partir da década seguinte. "Nos anos 60", diz ele, "os grupos comunitários na América pareciam estar no limiar de uma era de expansão e envolvimento (...) Nas últimas décadas do século 20 (...) começaram a desaparecer." Depois de um momento de grandes mudanças é normal que a ordem volte a ser colocada em primeiro lugar. E, como mostrou Albert Hirschman, depois que uma geração coloca todas as suas esperanças na transformação social e as vê frustradas, é de se esperar que a próxima se volte para os interesses individuais ou mesmo que se torne cética e cínica. Bárbara Ehrencheich, escrevendo sobre a classe média profissional, que, por sua própria ubiqüidade, caracteriza o mundo dos países ricos, observou que a jornada intelectual, política e moral dessa classe foi uma história que começou com o clima de generosidade e otimismo nos anos 60, para terminar em cinismo e em um auto-interesse cada vez mais estreito. Por outro lado, os dados sobre o aumento da concentração de renda, a redução das oportunidades de mobilidade social e o aumento da violência estão em toda parte. Vejam-se, por exemplo, os dados referentes aos dois primeiros problemas, e portanto ao problema da justiça social, nos Estados Unidos. De acordo com pesquisa realizada pelo Economic Policy Instititute, de Washington, enquanto em 1979 e 2000 os 20% mais pobres tiveram sua renda média aumentando 6,4%, a renda média do 1% mais rico aumentou 184%. Enquanto os cem principais executivos recebiam em 1979, uma remuneração média anual de US$ 1,3 milhão, hoje ela é de U$ 35,5 milhões: em 1979 a remuneração dos executivos era 39 vezes maior do que a do trabalhador médio, em 2000 essa relação havia aumentado para acima de 1.000 vezes! Por outro lado, segundo pesquisa de Earl Wysong e de dois colegas, os três da Universidade de Indiana, a mobilidade social nos Estados Unidos caiu verticalmente: em 1978 23% dos adultos que nasceram entre os 20% mais pobres da população haviam alcançado o nível correspondente ao quinto mais rico; em 1998, essa porcentagem caiu para apenas 10%. The Economist (1º/1/2005), relatando esses dados, comenta: "Em qualquer setor que você olhe os Estados Unidos de hoje você verá elites aperfeiçoando a arte de se autoperpetuarem. Os Estados Unidos são cada vez mais parecidos com a Grã-Bretanha imperial, com dinastias proliferando, grupos sociais entrecruzando-se, mecanismo de exclusão social ganhando força, e a diferença entre as pessoas que tomam decisões e moldam a cultura e a vasta maioria dos trabalhadores aumentando." A Revolução Estudantil de 1968 terminou, afinal, em contra-revolução. No próprio campo dos jovens, acabou se reduzindo a mais liberdade sexual. Conforme observou Jacques Rancière, "a crítica a essa sociedade [DE CONSUMO]havia sido uma das grandes palavras de ordem do movimento de 1968, mas pouco importa: Maio de 68 tornou-se retrospectivamente o movimento de uma juventude impaciente para gozar todas as promessas do livre consumo do sexo e das mercadorias (...) Ao transformar a sociedade inteira em uma agregação de consumidores narcisistas, desligados de qualquer elo social, ele garantiu o triunfo definitivo do mercado capitalista". Há boas indicações, entretanto, que a contra-revolução conservadora e neoliberal dos últimos 40 anos está terminando. O fracasso das reformas neoliberais, o desastre representado pela Guerra do Iraque, a crise financeira nos Estados Unidos são sinais de que os Anos Neoliberais terminaram. O que nos espera? Não são os críticos sociais que nos darão essa resposta, mas a própria dinâmica de cada sociedade nacional e da sociedade global em que vivemos. Devemos, entretanto, estar atentos, porque os novos tempos não decorrerão apenas da reação aos fracassos anteriores, mas das vontades políticas republicanas que souberem aproveitar o bom momento para fazer o mundo caminhar na direção da paz, da liberdade, do bem-estar, da justiça social, e da proteção da natureza.  Luiz Carlos Bresser-Pereira é professor de Economia na FGV-SP e de Teoria Política na USP

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