''Fazer teatro é um sacrifício danado''

Sintonia. Atrizes viveram a mesma personagem em peça        

, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2010 | 00h00

 

 

 

Quando Karen Coelho interpela Nydia Licia sobre o que deve mover um ator, o que ela aconselha aos alunos que ainda hoje mantém na Escola Célia Helena, a resposta chega na forma de outra pergunta: "Você precisa fazer teatro? Sente necessidade? Se não sentir, não faça. Não vale a pena. Porque é um sacrifício danado."

Nascida em Triste, na Itália, Nydia pisou no palco pela primeira vez por acaso. Trabalhava como assistente de Pietro Bardi, no Masp, quando soube que Alfredo Mesquita estava à procura de uma moça - magrinha, loira e de cabelos longos - para a nova peça de Tennessee Williams que estava a preparar.

A personagem em questão era Laura, a frágil figura de À Margem da Vida (outra tradução para Zoológico de Vidro), encenada no País pela primeira vez em 1947. "Estreamos no Teatro Municipal", lembra Nydia. "O Clovis Graciano assinava o cenário. O Alfredo (Mesquita) desenhou o meu vestido branco, de gaze. E foi a primeira ocasião em que apareceu no programa a sigla TBC. Mas ninguém sabia ainda o que era."

Mesmo que insignificante, toda a renda obtida com as duas récitas de À Margem da Vida no Municipal foi doada a Franco Zampari para ajudar na construção do Teatro Brasileiro de Comédia, a companhia erguida no número 315 da Rua Major Diogo, que mudou as feições do teatro paulistano e inaugurou a modernidade entre nós. "Os anos do TBC foram nossa escola", conta Nydia à atriz iniciante. "Primeiro, veio o (Adolfo) Celi. Depois o Ruggero Jacobbi, que já havia dirigido Procópio Ferreira e Maria Della Costa, no Rio. Cada um tinha o seu estilo."

Com olhos atentos, Karen acompanha a digressão e revela sua curiosidade em saber como trabalhavam esses diretores, o método que aplicavam. Tudo muito rigoroso, lembra Nydia. "Antes de começar o ensaio, Ziembinski já tinha tudo marcado no texto. As movimentações, o estudo psicológico das personagens. E isso é uma coisa que eu sempre ensinei nas minhas aulas: um ator precisa saber o que vai representar."

Ainda que tenham apreço por um mesmo tipo de teatro, as duas atrizes lidam com cenários completamente distintos. Karen está em cartaz de sexta a domingo. Mora no Rio e vem a São Paulo para cumprir curta agenda de apresentações. "Você faz uma peça hoje e daí leva a semana inteira para fazê-la de novo?! Isso muda tudo, muda o ator", observa Nydia. "Sou de uma época em que fazíamos dez sessões por semana. Para você ter ideia, éramos tão entusiasmados que me casei numa segunda e na terça já estava no teatro ensaiando."

Consagração. O casamento com Sergio Cardoso ocorreu no TBC. "Mas não foi no palco, não. Foi no saguão". Da união, nasceria, em 1956, a companhia Nydia Licia-Sergio Cardoso, responsável por montagens marcantes, como Chá e Simpatia, que consagrou a atriz nacionalmente.

"A relação com o teatro, com o texto, era outra", lamenta a jovem intérprete. Mas antes que a conversa termine, Nydia saca outros ensinamentos para aplacar as angústias da pupila. "É engraçado porque tudo é uma fase. Há períodos em que se fala de um jeito. Depois, isso não serve mais e querem começar uma coisa nova. E, geralmente, é algo muito parecido com o que se fazia bem antes, em 1800. Mas não adianta. Não existe nada de novo. Teatro é palavra. É ator e público."

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