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Fazer história 3

Todo pretérito pertence a todos e qualquer um pode e deve falar dele

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

29 Julho 2018 | 02h00

Desde domingo passado, discuto sobre aquilo que faz o historiador e por que esse trabalho é fundamental. Encerro, hoje, minha pequena e incompleta apologia da História.

Começo com uma narrativa que já contei em um livro lançado há anos. Imaginemos uma menina de 15 anos que esteja em seu baile de debutantes. Vestida de branco, emocionada, ela vive um momento muito especial. Música, amigas, um possível namorado, comida e muitos fatos para guardar e comentar. A festa é densamente fotografada e filmada por ávidos smartphones e equipe profissional.

Passados dez anos, a nossa protagonista ficcional chegou aos 25. Ela olha os registros. Pode vir a considerar tudo de extremo mau gosto: “Por que não fiz uma viagem com esse dinheiro?”. Passado mais meio século, eis nossa personagem aos 75 anos, cãs pronunciadas e rugas na face. Ela revisita o mesmo material e comenta com seus netos: “Olhem como eu era bonita! Que noite maravilhosa foi aquela!”. 

Houve um fato: o baile de debutantes. Não foi inventado como acontecimento. A memória sobre o evento, contudo, transformou-se bastante, conforme as realidades vividas, suas novas reflexões e imperativos. Em outras palavras, escolher qual o fato que queremos destacar e como trabalharemos a memória é uma atividade de todos e que o historiador tenta tornar consciente e crítica. Assim, dizer que a História necessita ser reescrita não é apenas um imperativo derivado das descobertas constantes de documentos no seu sentido amplo, mas também da mudança de significação que damos a documentos antigos. 

Vamos a exemplo concreto. Muitos leitores podem ter ouvido falar que o Brasil, por ter sido colônia de exploração, é esta terra de DNA corrupto, onde em se plantando nada dá, pois roubam semente, solo, água, fertilizante e ferramentas antes mesmo da semeadura. Para cá, mandaram a ralé ibérica, gente de mentalidade atrasada, disposta apenas a vilipendiar indígenas e apossar-se de riquezas para, rapidamente, voltar a suas metrópoles de origem. Com isso, herdamos instituições viciadas, nepotismo, patrimonialismo e toda sorte de mazelas. Normalmente, quem diz isso tem o oposto na ponta da língua: por terem sido colônia de povoamento, os EUA são como são: a maior nação democrática e livre do mundo. Para lá, só foi gente fina, elegante e sincera... A atitude não seria predatória, mas preocupada com o desenvolvimento local e isso explicaria tudo.

Uma atitude historiadora diria: baseado em quais documentos se chegou a essa tese? Por quais caminhos metodológicos passaram esses documentos? Como foram tratados? A resposta a essas questões, o mesmo leigo não teria. No máximo afirmaria, como no preâmbulo da Declaração de independência das 13 colônias, que acredita em verdades autoevidentes. Claro: desde que tais verdades reafirmem sua crença. 

No século 17, quando a América espanhola já apresentava universidades, bispados, produções literárias e artísticas de várias gerações, a costa inglesa da América do Norte era um amontoado de pequenas aldeias atacadas por índios e rondadas pela fome. Decorridos cem anos do início da colonização, caso comparássemos as duas Américas constataríamos que a ibérica se tornara muito mais urbana e possuía mais comércio, maior população e produções artísticas e culturais de mais envergadura que a inglesa. Por todos os lados, o historiador vê elementos que não confirmam a ideia de exploração como eixo único: o mundo ibérico dá a ideia de permanência. 

Tipologias coloniais existem pelo menos desde Adam Smith, mas foi no século 19, em pleno processo de neocolonialismo, que estudiosos como W. Roscher desenvolveram o que parece ter sido a gênese da explicação “povoamento” vs. “exploração”. Não que ele tenha cunhado as expressões, mas um francês, Leroy-Beaulieu, na virada para o século 20, apropriou-se de Roscher, simplificando suas ideias. Um brasileiro muito importante para nós, historiadores, Caio Prado Jr., leu Leroy-Beaulieu e o simplificou um pouco mais. Nascia o mito “povoamento” vs. “exploração”. Gente séria, que se formou lendo Caio Prado, tratou de espalhar e simplificar ainda mais a teoria em escolas e livros didáticos. Estrago feito. Nada sobre isso na documentação, mas tudo o que muitos repetem com o rigor dos psitacídeos.

O que quero dizer? Primeiro, que a representação do passado e do que consideramos importante representar também é um processo constante de mudança. Se a memória muda sobre fatos concretos e protagonizados por nós, também muda para fatos mais amplos. A História é viva e mutável. A explicação sobre a lógica da colonização explicar nosso atraso e o avanço anglo-saxão parecia convencer nos anos 1940. Não resistiram a pesquisas posteriores.

É fundamental que as pessoas deixem de achar que pitacos aleatórios sobre o passado são a mesma coisa que fazem os historiadores. Todo pretérito pertence a todos e qualquer um pode e deve falar dele. Profissional de universidade ou erudito por formação, o historiador faz pesquisa. E são essas pesquisas, e não palpites, que fazem avançar nosso conhecimento sobre o passado. Nós erramos, mas a própria metodologia da História tenta reparar os equívocos com novas pesquisas. 

Por fim, a ferida. Richard Kagan, historiador americano, recentemente falou que nossa tribo precisa vencer a barreira de escrevermos apenas uns para os outros. Nossa dificuldade para elaborar uma história ativa na esfera pública abre espaço para concorrência, tanto a boa como a desonesta. Historiadores: vençamos o ressentimento quanto ao êxito alheio e escrevamos juntando método e pesquisa à leveza e fluidez. Todos sairão ganhando. Bom domingo!

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